Casa na seta do tempo

Ontem passei pela nossa casa antiga. Não porque o quis, mas porque as circunstâncias e as coincidências me lá levaram. A paliçada da varanda ainda lá continua — um pouco mais escura, mas exactamente como a colocámos há um ano e pouco. As janelas estavam lavadas de fresco e, por entre o reflexo laranja do sol a pôr-se, deixavam-me espreitar. A sala tem novos candeeiros — eu devia-o saber, já que os antigos estão na minha nova casa — e nota-se que a disposição da sala também mudou um pouco. Mas onde estavam os nossos quadros com as nossas caras ensonadas, estavam agora novos quadros com caras sorridentes — será que por detrás daqueles sorrisos estará tanta felicidade quanto estava por detrás daquelas caretas de meia noite? Na cozinha, o microondas está em cima de um frigorífico branco. Não deve ser confortável ou funcional, mas ele lá estava, pronto a aquecer os restos de pizza que eu te tinha obrigado a deixar-me comer na noite anterior. Em baixo, a cancela do parque de estacionamento continua avariada e, se eu estivesse a conduzir o meu carro, tenho a certeza que ainda entraria por ali dentro à procura de lugar.

Enquanto caminhava, pés no chão, olhos num primeiro andar coberto de tijolo alaranjado, os passos faziam-se eles próprios, sem vontade nem resistência. Afinal de contas, o destino estava ali ao lado, mesmo junto a tantas outras tardes e noites já vividas. Acabei no mesmo café onde parávamos quase sempre, não porque o quis, mas porque as circunstâncias e as coincidências me lá levaram. Não tinham a minha tosta preferida — presunto e mel — mas apenas porque tinham vindo de férias. Também não tinham o mesmo cheiro que eu sentia quando lá ia, mas tinham os bancos onde eu me sentava e onde me sentei tantas vezes.

À noite, de volta ao carro, podia ter olhado para a nossa antiga casa e ver, ainda mais claramente com as luzes ligadas e sem o último raio de sol de verão a bater nas janelas, quem vivia onde já vivemos. Não o fiz, desta vez não por uma coincidência qualquer, mas porque não o queria. Estranho o facto de nunca mais voltar aquela casa. Independentemente do que quer que seja que eu faça, aquela casa está fechada para mim, e o que lá vivi está fechado na seta do tempo. Voltar lá é tão impossível quanto voltar a ser criança ou voltar ao tempo em que os dinossauros pastavam onde agora se estacionam carros. Mas o vazio de ver uma casa que deixei vazia estar agora cheia de outras pessoas, outras estórias, outros quadros, traz um gosto agridoce à boca. E não há tostas de presunto e mel.

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