O colapso de uma supernova

Como eu e a minha namorada caímos numa armadilha

source: Death to Stock Photo

Para uma pessoa de 24, 25 anos, as relações já começam a ter algum peso. Casos que até esta data eram apenas casos, ganham uma nova dinâmica de maturidade e de planeamento de futuro. Para todos os efeitos, quando se chega aos 25 anos, apercebemo-nos de que já não falta assim tanto tempo para que se comece a falar em filhos, em morar juntos, em partilhar as tarefas domésticas — basicamente em ter uma vida em conjunto. O grande problema é que aos 25 anos, ainda somos demasiado “novos” para tomar conta de nós próprios, quanto mais de uma vida partilhada.


Há já muitos anos que vivo fora de casa dos meus pais. Há já uns poucos de anos que vivo em completa independência e consequente responsabilidade. Não que a parte da responsabilidade tenha estado sempre presente — Olá ano inteiro a comer pizza, noodles, e “coisas” — mas para todos os efeitos, tenho-me mantido vivo e nunca tive nenhuma intoxicação alimentar auto infligida. Por isso, a parte do tomar conta de mim próprio está mais ou menos tratada.

A minha namorada sempre viveu com os pais. À excepção de 6 meses em Amesterdão, através de Erasmus, ela sempre teve essas paredes e esse ambiente partilhado. O que não é mau — não se pense que eu ache que isso é mau, é apenas uma vivência diferente. De resto, ela sempre teve a mais estreita relação com os seus pais, que eu adoro, por sinal. Ela também nunca teve nenhuma intoxicação alimentar auto infligida, mas nos quase dois anos em que vivemos juntos, das poucas vezes que se cozinhou em casa, eu fui quase sempre o chef de serviço.


Vivemos juntos há perto de 2 anos. Enquanto relação, já não falta muito para se bater nos 3. E se me quiserem perguntar, nunca estive tão certo de que esta seria a mulher para mim, como estive durante estes 2 anos. Embora não muitas vezes tenha sido perfeita, a nossa relação sempre se manteve apoiada no amor que sentíamos um pelo outro. E embora pareça cheesy e forçado, é a verdade. Vale o que vale, mas nunca nos conseguimos chatear durante muito tempo, porque a força gravitacional que nos ligava era demasiado forte. Mas o tempo só é subjugado à gravidade na física quântica. Na física dos corpos humanos, o tempo é um tirano cruel e absoluto. E nós fomos apanhados pelo avançar do tempo e pela inércia dos nossos próprios sentimentos.


Ultimamente, o sentimento que tenho é que somos apenas dois corpos que não querem estar sós, e por isso acabam por ficar sozinhos mas acompanhados. Não se sente qualquer tipo de chama, da paixão louca e avassaladora que havia antes. Agora há apenas o monótono cumprimento das tarefas mínimas, num ciclo exasperante de dormir-trabalho-comer-dormir. E se por um lado, eu consigo perfeitamente viver com alguém sozinho, nunca o conseguiria fazer com a mulher com quem visionei — ainda visiono — casar, ter filhos, uma cabana à beira rio e um ou outro podengo. Nunca o conseguiria fazer, nunca. E no entanto, no final desta semana, fi-lo. Sem eu perceber o porquê ou como. Mas no final desta semana, o sentimento que tenho é o sentimento de cansaço, de confusão, de abandono. E se calhar, o que ela sente há-de ser exactamente o mesmo.

Sempre discutimos sobre o facto de ela querer que eu tomasse melhor conta da casa, a surpreendesse; e sobre o facto de eu querer que ela não explodisse de fúria comigo e de eu querer que houvesse mais intimidade entre nós. Que me encontrem um homem a pedir mais intimidade numa relação e eu dou-vos um chocolate. E se sempre discutimos, sempre conseguimos passar à fase das tréguas e pazes, e até de uma forma rápida. Prometíamos um ao outro que continuávamos apaixonados e que íamos trabalhar nas nossas falhas. Prometia a ela e a mim próprio que tudo iria correr bem.

“Tudo vai correr bem, tudo vai correr bem…”

E de promessa em promessa, de vai que não vai ou foi e já não vem, desembocámos nesta fatídica semana em que os corpos frios se aliaram ao mau tempo, numa tempestade muda e calada mas não menos destrutiva. No final desta semana, saio derrotado, sem qualquer tipo de ideia se caí por uma esquerda ou por um uppercut de direita. Apenas sei que, vistas do tapete, as luzes eléctricas parecem supernovas. Ou se calhar, nós é que somos uma supernova e só agora me apercebo disso.

O que me magoa mais nisto tudo é o facto de eu ainda a amar. De forma inevitável, definitiva e pesada. Sei-o, como sei o meu nome ou o sítio onde as minhas costelas se deprimem num buraco. Sei-o, mas não sei se ela o sabe também, ou se sabe se ela ainda me ama.


A armadilha do tempo apanhou-nos. Deixámos que o sofá e os telemóveis nos fossem engolindo a vontade de mudar o mundo, de pegar no carro e ir sem GPS, de fazer amor enquanto chove lá fora. Quando tudo se resolver, vamos prometer mudar, virar as pedras da calçada, de todas as calçadas do mundo. Vamos prometer e jurar que as supernova não têm que se tornar em buracos negros, mas que podem voltar a ser estrelas polares. Quando tudo se resolver, eu vou prometer que “Tudo vai correr bem, tudo vai correr bem…”

Só quero que se resolva. Só não posso ser apenas eu. Só não podem ser apenas promessas.

Ou então que as supernovas expludam num milhar de cores e brilhos, arrefecendo e quebrando-se de seguida.