O colapso de uma supernova (epílogo)

Casa Interior Ou O sonho de Santiago

“I know the only cure, which is to make one’s center of life inside of one’s self, not selfishly or excludingly, but with a kind of unassailable serenity — to decorate one’s inner house so richly that one is content there, glad to welcome anyone who wants to come and stay, but happy all the same when one is inevitably alone.”
— Edith Wharton

A beleza da perda está na necessidade de ocupar o vazio deixado. De encontrar algo novo que apaixone e ocupe. Que faça sentir vivo. Que faça crescer enquanto pessoa, mas que não esteja tão afastado que não mais me traga de volta. Confesso que ainda não encontrei nada específico que ocupe todo o espaço vazio. Seria trágico se um vácuo tão grande e tão profundo fosse facilmente ocupado, preenchido e destituído de si próprio. Não, a minha perda foi grande, e foi sentida. Mas isso não significa que nada possa crescer daí.

Faço exercício com alguma frequência e, embora já não corra tanto como corri logo a seguir ao Colapso, passeio mais. Pela cidade, sozinho, por ruas que não sei onde vão dar e por outras que não sei sequer se existem. Escrevo mais, sobre ela, sobre a cidade, sobre filmes, música e filosofia. Vejo mais filmes, mais séries e mais estórias. Ouço muito mais música, de uma forma muito mais fechada e profunda entre duas latas sobre cada orelha. Voltei a desenhar, muito embora não consiga desenhar grande coisa além de sarrabiscos onde só semicerrando os olhos se percebam as formas de uma mulher, ou de um candeeiro. Um dos dois…um dos dois.

Pergunto-me se faria tudo isto se ainda estivesse com ela. Sei a resposta, mas também sei que só o faço pelo vazio deixado. A minha crença nas Leis de Newton atraiçoa-me aqui.

“Tudo vai correr bem, tudo vai correr bem…”

Ainda me sinto sob a influência de tantas coisas que disse e senti, ou me fizeram sentir. Como que se os últimos anos fossem um opiáceo constante. Agora estou a ressacar, de forma bruta e abrupta, na solidão calma de quem já se encontrou sozinho e em si próprio. O cansaço e as dores de cabeça típicas de uma ressaca ainda se manifestam, por vezes, num aperto no estômago quando ouço um carro com o mesmo barulho que o dela a entrar pela garagem dentro, ou num esvaziar de mente mais brusco numa foto partilhada que se atravessa à minha frente. Mas já me sinto com os pés bem firmes na terra quente e molhada. Já me sinto de pé, encostado levemente a um qualquer farol que me queira acompanhar contra o vento atlântico.

“Tudo vai correr bem, tudo vai correr bem…”

Mesmo que nem tudo corra bem, não há problema. Desde que eu me mantenha em movimento, a inércia há-de me levar onde ela quiser, nos meus passos sem rumo pré-traçado. E isso é um bom prenúncio para o que quer que seja — a constância do movimento é a única constante. Até a casa interior da Edith, se move, se transforma e se decora, independentemente do tempo lá fora. Eu deixo a casa de lado e decoro a tenda, preparada na mala do carro, pronto a partir em rumo onde os astros me guiarem — basta que eu aprenda a ler a Estrela Polar, mesmo em noites de chuva.

Quanto ao vazio que ainda sinto, haverá mais léguas para caminhar e mais tempestades para desbravar. Afinal de contas, mesmo que o marlim não chegue à ilha, Santiago sonhará sempre com leões na praia e tudo vai correr bem.

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