O tempo

Eu fui em busca do tempo. Mas ele não tinha lá tanto tempo para mim. Ficamos sentados nos olhando, procurando sinais que demonstrassem a preocupação que nos trouxera àquela sala. Eu e o tempo.

Há muito procurei uma forma de mensurar o que ele poderia ser. Procurei entender a diferença de um segundo, um dia ou um ano. A importância relativa de um instante na vida. E quanto mais repostas eu encontrava, mais perguntas também apareciam.

O tempo insistia em fugir de qualquer explicação. Se escondia por trás de um por enquanto, ria das minhas insinuações sobre seu humor volátil e não se importava em diminuir ou aumentar o passo da conversa. Vez ou outra olhava no relógio com cara de quem vivia a metáfora da cena que estrelava. Era cínico como só o tempo poderia ser.

Foi quando aconteceu daqueles estralos que nos faz lembrar os porquês. E que bendito porquê havia me levado a estar ali encarando o tempo como se ele soubesse mais de mim do que eu mesma? Parece loucura, não é? Logo ele que me atravessa e brinca de fazer o presente virar passado.

Passado. Ele ria quando eu mencionava o passado. Pelo jeito que ele me olhava, parecia uma história bem contada que me fez ficar presa entre um riso e uma lágrima. Ainda com um sorriso no canto da boca, o tempo me ensinou a olhar para o passado. Olhar. E entender que foi ele que me trouxe até aqui e que, entre vitórias e tropeços, me fez ser quem sou hoje. Ele admirava o passado como um autor admira sua obra prima.

Com um tom mais sério, ele continuou e falou do que ainda havia de vir. Levantou uma sobrancelha, me lembrou que meu passado se tornaria cada vez maior e meu futuro cada vez menor, o que eu faria disso dependeria apenas de mim. E riu. Riu como quem sabia que me colocara entre dois monstros que poderiam me engrandecer ou me engolir.

Foi então que, como quem chega no êxtase, o tempo ficou mudo. O silêncio logo seria quebrado pelo brilho que saltava dos seus olhos. O tempo sorriu de novo. Dessa vez, não debochado. Pegou na minha mão como quem quisesse me acompanhar. Olhou ao redor e me mostrou o que ele chamava de presente.

Presente. Poderia ser só uma palavra se não fosse carregado de tanto significado. O tempo me olhou nos olhos. Me questionou então sobre o que eu gostaria de colocar naquela fração de segundos da minha história. A fração de segundos que representava o tal ‘presente’. Segundos. Dura pouco, eu sei, mas o que seria pouco além da relatividade do próprio tempo?

Desde então, temos tentado chegar a algum acordo. Vez ou outra ainda nos encontramos. Quando é necessário, ele me leva ao passado ou fala do futuro, mas gosta mesmo é de estar no presente. É neste tal de presente que ele me desafia dia após dia a construir minha morada e, assim, conviver com ele: o tempo!

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