Amargo
Houve uma época que eu não gostava de café, preferia leite achocolato, não tinha experimentado álcool, tossia muito com o cheiro de cigarro. Ele, mesmo sendo mais novo (só dez dias), já gostava de cerveja e não passava um dia sem colocar um Lucky Strike na boca. E aí o café.
Podia ter perdido minha virgindade naquele dia, que não era nem quente e nem frio apesar da garoa, naquele quarto que depois de seis anos continua igual. Talvez tenha sido isso, assuntos inacabados, revividos durante anos todas as noites. Até minha primeira vez, qualquer oportunidade me era negada pela minha própria anatomia. Eu sabia que me entregaria para ele se ele pedisse, e talvez meu corpo quisesse me poupar desse laço. Menstruada, sem dormir por duas noites, nervosa com a prova da Fuvest. Esqueci de tudo quando ele subiu em cima de mim e começou a me beijar, mas meu corpo não esqueceu de jorrar sangue e do cansaço que sentia. Tudo explodiu em uma enorme confusão, mas o perfume era tão bom, o beijo era tão macio, pelo menos até ele ir fumar um Lucky Strike na janela do corredor. Ele pede desculpas.
— Vou fazer café. Você quer?
— Não tomo café
— Por quê?
— Ah, acho amargo
— Eu sou amargo e você gosta de mim
Seis anos se passaram e ele continua amargo. E eu gosto de café.
