Ponteiros

O relógio dizia ser meia noite. Minha cabeça estava leve, ainda mais leve do que o efeito do álcool já foi capaz de proporcionar. Observar os móveis, sentir o cheiro do local e concentrar-me nos sons ao redor não ajudou em nada, minha mente continuava distintamente vaga, como se estivesse entrando em transe ou caindo no sono. Talvez estivesse. Aviso que vou dar uma volta pelo quarteirão na esperança de encontrar alguma coisa que faça sentido. Já conheço as ruas, mas ainda não me são familiares. Sei o nome nas placas, sei os caminhos, até sou guiada automaticamente por meus pés, porém o que vejo não são as casinhas com seus jardins e teias de aranha pelas cercas, nem o céu negro com constelações. A sonolência muda minha capacidade de cognição, e penso que são onze horas da manhã. Visualizo o céu aberto, azul e cinza, o calor, o mormaço do centro, as pessoas inquietas para a chegada do horário de almoço. Minha querida cidade, tão nítida agora que poderia estar andando por aquelas calçadas ora tão largas e ora inexistentes.

Balanço a cabeça, um turbilhão de pensamentos se apossando desse estado tão frágil em que me encontro. Onde estou? Quando estou? Poderia ser uma viagem no tempo e no espaço, mas se for, violei alguma lei da física drasticamente e fiquei presa entre dimensões. Estou aqui e estou lá, não sei diferenciar qual é qual. Vejo portais se abrindo e fechando, exibindo um céu cinza e altos prédios e muito barulho urbano, depois um céu azul e uma rua quieta com poucos carros e um vento gelado que vem direto do oceano para arrepiar a pele dos passantes. Que horas são, me pergunto, com medo de olhar por mim mesma, sabendo que vou ver dois horários, dois tempos, dois climas.

O tempo é traiçoeiro, falso. É um número sem significado sendo constantemente quantificado. Quem é que mede momentos em horas, minutos e segundos? Já se foi a época do absoluto. Talvez o melhor a fazer é seguir as horas nuas propostas pela intensidade da luz do sol ou da lua. Uma pena ser tudo tão corporativo, sempre quantitativo, esquecendo do qualitativo, fazendo de conta que eficiência vem de quem consegue fazer mais em menos tempo. São onze horas da manhã aqui, são meia noite por lá.

“Sinto muito, querida, já te traí, mas é em você que penso o tempo todo, é você quem eu procuro nas ruas que adormecem tão cedo por aqui, enquanto para você o tempo não para e suas pálpebras jamais se fecham. Me perdoe, querida.”

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