Relativo

Palavras, sons lançados ao vento procurando um ouvido aberto para ressonar de novo e de novo, até perder o significado, até ganhar cinquenta novos significados, até manter o cérebro acordado a noite toda rearranjado as letras e definições do dicionário. Visualizado, sem resposta. Horas se passam.

Bocas que a princípio estão cheias de sentenças apertando os pulmões, sufocando a garganta, e bocas que só precisam exercitar os lábios. Uma hora são bocas que ficam vazias, procuram complemento, outra língua no meio da noite preenchendo um buraco. Os gostos variam, só os pensamentos e as promessas quebradas que continuam iguais.

— Não me olhe assim, por favor.

— Assim como?

— Você sabe como.

— Por que não?

— Porque preciso ir embora.

(Sempre preciso ir embora, vou para casa quando queria ficar mais duas horas, vou para casa quando não queria nem ter saído, vou para casa porque lá posso ficar sozinha e imaginar tudo diferente).

— Mas vocês se viram novamente?

— Não…

— Por quê? Você fica falando que está com saudades e fica por isso mesmo? Não vai atrás? Não faz o menor sentido, parece que você não quer nem tentar ser feliz.

— Já sei. Todo mundo me diz isso. Não quero mais conversar.

Esconderijos, pode ser o carro, a praça, o cinema, o quarto, desde que ninguém saiba e nem possa ver o que acontece ali. Todo mundo sabe, não sabe? O anseio pela intimidade, pelo calor de pele contra pele, a bagunça de fluídos de um corpo para o outro. Tudo em segredo, até acabar e virar texto, foto, relato para os amigos no bar. O segredo real continua lá no fundo, escondido até do próprio indivíduo, e só vai aparecer no meio da música melancólica, no último segundo antes de cair no sono.

(Eu uso palavras, manipulo palavras, mas não sentimentos. Como se manipula sentimentos? E por que os olhos sempre entregam a verdade? Não quero conversar olhando nos olhos. Não dá para falar uma coisa com a boca e outra com o olhar. É confuso demais, é muito confuso).