Vênus em Áries

Beijá-lo foi jogar combustível nas chamas. Quando chegou o mundo entrou em colapso, as pessoas sumiram, a rua ficou vazia, não existia nenhum som além de sua voz ora suave e brincalhona, ora determinada e sedutora. Havia observado seus movimentos em outras circunstancias, habilidosos e rápidos — agora eram lentos, como se cuidadosamente planejados para manter meu olhar atento. Perguntei-me se era de propósito e pedi que parasse. Com um sorriso ele disse “parar com o que?” Se aquilo era um jogo, eu perdi há muito e a pontuação era um absurdo de pontos para ele e todo aquele charme. Seria o ascendente em Leão? Mal conseguia pensar. O Sol em Áries não equilibrava o teatro improvisado. A energia do carneiro era evidente e só agregava à sua graça. A atitude amolecia minhas pernas e fazia com que eu me esquecesse de respirar.

Falava sobre o beijo. Não conheço palavras o suficiente para descrever o quanto desejava aqueles lábios nos meus, era quase impossível tirar os olhos do contorno rosado, o inferior levemente mais carnudo que o superior e dois furos no canto esquerdo contando uma breve parte de sua história. Descansei uma mão fria naquele rosto despreocupado, hipnotizada pelas maçãs pronunciadas, pelo olhar levemente malicioso. Dois Vênus em Áries. Combustível para um fogaréu.

— Minhas mãos estão muito frias?

— Não tem problema. É refrescante.

Seu corpo estava realmente quente. A pele macia aumentava o desejo em mim e gemi sem que ele fizesse nada além de me beijar, uma agonia crescia implorando que nossos corpos se unissem.


Em uma realidade alternativa pude levá-lo para casa, um apartamento pequeno e aconchegante a talvez quinze minutos de caminhada. Gostaria de dividir tudo de mais íntimo com ele e ao mesmo tempo queria esquecer o passado, convidá-lo para criar milhares de memórias, planos para um futuro próximo, escrever uma história nova e esquecer os malditos pesadelos que me seguiram até aqui. É por isso que detesto ter a Lua em Câncer. Quando perguntou sobre mim não consegui responder. Não estava prestes a começar uma sessão terapia com um ariano que já me tinha nas mãos, mesmo que ele nem desconfiasse.

— Tudo bem, então eu conto uma coisa sobre mim.

Sua revelação me deixou boquiaberta. Fossem outras as circunstancias, fosse ela outra pessoa, eu teria mudado de ideia e deixado nossos caminhos seguirem rumos diferentes. Mas em nenhum momento aquela intensidade morreu em mim. A verdade é que fiquei ainda mais curiosa e interessada. Olhei-o com inveja e admiração. Éramos dois opostos: ele, vivo e apaixonado, impulsivo e sem arrependimentos, pronto para próximas aventuras — afinal, existe outro jeito de viver? — ; e eu, medrosa, com sentimentos e vontades sufocados por uma superfície fria e calculista, sempre fazendo planos, nunca os realizando. Senti ainda mais vontade de ficar perto dele, beber de suas experiências, conversar por tantas horas por dia que em algum momento poderia saber o que pensa só de olhar em seus olhos. Pouco importava o fato de eu não ter coisa alguma para dividir. Ele parecia se divertir com meu silêncio e reações.

— Você é tão expressiva!

— Eu!?

— Sim! As pessoas não costumam ser tão expressivas.

— Eu odeio isso. Pareço vulnerável se as pessoas conseguem ler meu rosto assim.

— Isso é bom!

Será que meu rosto demonstrava o quanto eu o desejava? Não apenas sexualmente, apesar de me sentir estranhamente e fortemente atraída por ele. Desejava ouvir todas as histórias que ele poderia me contar, saber todas as suas vontades e teorias sobre o mundo. Poderia viver para assistir ao espetáculo daquela liberdade, sabendo que meu Sol em Aquário jamais tentaria domar esse homem que tanto fez por mim em alguns minutos. Mas essa é uma realidade alternativa, aquela em que conversamos por horas sobre o cotidiano, sobre estrelas, sobre ex-namoradas e mais histórias incomuns, comendo qualquer coisa da geladeira enquanto aos poucos a água da sua Lua em Peixes era derramada na minha. Vênus regia nossas vontades como uma coreografia entre ímãs.

— Foi um prazer conhecer você — ele disse, sorrindo. Quis dizer que o prazer foi todo meu, que gostaria de mais tempo, que poderia acompanhá-lo até em casa mas apenas sorri e plantei um último beijo em sua boca.

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