A questão da mise-en-scène em Aurora (1927) e o “cinema moderno” de Christian Metz

Antes de 1927, os filmes eram mudos e, em geral, esquisitos. Com isso quero dizer — é claro — esquisitos pra gente, aqui em 2018, acostumados com uma maneira de contar histórias no Cinema que precisou passar por vários processos históricos pra se tornar o que é hoje.

Digo isso porque estava ontem lendo um texto do Christian Metz, teórico importante do Cinema, escrito em 1964. Metz dizia que “F. W. Murnau já fazia cinema moderno”. Oloco, bicho. Bem. Calhou de no mesmo dia eu assistir Aurora, filme do Murnau de, vejam só, 1927.

1927 é uma data importante pra história do Cinema. É quando começam a surgir os primeiros filmes “falados”. Notem, antes disso, o Cinema tinha passado bem uns 30 anos contando histórias sem falas.

Técnicas e técnicas haviam sido desenvolvidas. O próprio Metz diz que os filmes mudos eram, na verdade, “tagarelamente mudos”: nenhum personagem dizia coisa alguma (com sons e palavras), mas eles usavam outras maneiras para se expressar.

Os gestos, por exemplo. Os gestos eram absurdamente exagerados, muitissimante caricatos; mais ainda que no teatro, como destacou outro teórico importante do Cinema, André Bazin.

Enfim, fui ver Aurora, o tal filme já de “cinema moderno” de 1927. Quê esperava eu encontrar? Baseado no resto do texto do Metz, que não cabe explicar aqui, esperava planos longos, uma montagem pouco fragmentada, uma busca incessante por um realismo…

É que Metz fala bastante, como Bazin, sobre a vocação do Cinema ser a de apreender alguma coisa integralmente, e que portanto toda a linguagem utilizada pelo filme deveria se voltar a isso. Apreender uma realidade, eis a natureza do Cinema.

E outra coisa: o Cinema mostra o que ele tem que mostrar, e você vê o que ele te mostra. O Cinema te mostra um carro, você vê um carro. Metz faz críticas imensas a cineastas que abusavam da montagem, como Eisenstein: ele mostrava um leão e queria que você enxergasse a revolta do proletariado.

Aurora vai por esses caminhos? Vai, bastante. Gritantemente. Mas gostaria de lançar aqui uma objeção: a mise-en-scène, isto é, a forma que os elementos são colocados diante da câmera, especialmente os atores.

Nos extremos, temos duas opções: em uma, os atores atuam e você usa cortes pra buscar o melhor ângulo, a melhor maneira de ver — na outra, você ensaia um bilhão de vezes e faz os atores atuarem “para a câmera”, de modo que a própria ação implica num modo de ver.

Aurora usa e abusa da segunda opção. Os planos parecem pinturas; os personagens se movem buscando a melhor maneira de se mostrar para nós, da audiência. Ora. Isso bem que podia ser “cinema moderno” lá nos anos 60. O Cinema que fazemos hoje passa longe disso.

Fragmentamos qualquer cena mais vezes que o necessário. Ninguém atua pra câmera hoje. Muito menos temos aquela câmera perspicaz que “vai buscar” alguma coisa que ninguém teria visto. Hoje a imagem carrega uma multiplicidade indefinível. Quem “busca” alguma coisa, quem tenta estabelecer qualquer tipo de coerência ou unidade, não é nem a mise-en-scène, nem a câmera, mas o pobre do espectador. Será que hoje em dia não fazemos mais “cinema moderno” como em Aurora?