Personagens Mal-Definidos e Narrativas Formulaicas

Recentemente tentei assistir alguns animes e abandonei todos depois de poucos episódios. Sempre pelo mesmo motivo: personagens mal-definidos e narrativas formulaicas. Seguinte: no imaginário popular existem alguns personagens e eventos que são sempre relacionados aos animes.

Digamos, o personagem que se acha o bonzão, que se exclui socialmente e que ainda assim é visto pelos outros como invejável, que tem uma moralidade duvidável e muita força de vontade (e.g., Sasuke).

Por outro lado, há também os eventos: por exemplo, quando um dos personagens precisa cozinhar e todo mundo come fingindo que está gostando, ou então quando amigos vão a uma fonte termal e os homens espiam as mulheres. São coisas abstratas que relacionamos aos animes.

Quando se fala de gênero dramático/cinematográfico/literário, essas coisinhas podem ser vistas como “convenções de gênero”. Uma obra precisa aderir a elas para ser considerada pertencente a um determinado gênero.

Uma história de detetive precisa ter alguém fazendo o papel de detetive para ser considerada uma história de detetive. O mesmo vale para romance, faroeste, fantasia épica, ficção científica, noir, chanchada, etc.

Mas a aparição pela aparição não convence. Quando as únicas características dos personagens são aquelas drenadas das convenções do gênero, não consigo acreditar que ele é uma “pessoa de verdade”. Não consigo levar a sério, investir emocionalmente. Não consigo me importar.

O problema não é atribuir as características aos personagens, é parar por aí. É não desenvolvê-las. Eu quero ver a complexidade do personagem diante do mundo, quero vê-lo mudando, se questionando, e, mais importante, quero ver o personagem tomando decisões que só ele tomaria.

Um personagem só é um personagem bem-definido quando apenas ele no mundo faria aquilo daquela maneira. Só a Hermione reagiria de tal maneira diante de tal acontecimento — Peter Parker reagiria de outro modo, Forrest Gump de outro ainda, e Chicó de mais outro, etc.

Personagens que executam ações que qualquer outro personagem executaria — ah, esses são fracos, eu diria até mal escritos. E o mesmo vale para os eventos: quero ver eventos irrepetíveis.

Como leitor e espectador, tenho anseio por eventos que sejam causados pelos personagens. Não por qualquer personagem, mas por AQUELES personagens.

Os tais animes que eu abandonei tinham narrativas cíclicas. Cada episódio tinha uma estrutura padrão do tipo “o personagem quer ir até tal lugar, os inimigos aparecem, ele descobre um novo poder, ele vence os inimigos” e isso se repetia sempre.

Também não é por si só um problema. Mas essas estruturas, em geral, em outros casos, são extremamente abstratas. Para ficarmos nos animes, Made in Abyss e Barakamon têm estruturas muito bem definidas, mas é algo como “começa bem, fica mal, volta a ficar bem,” ou seja, extremamente abstrata.

O problema é a estrutura sair do campo da abstração e se tornar quase que objetiva; quando você consegue de fato descrever e até prever os eventos. Em Koutetsujou no Kabaneri, podemos adivinhar quando o aparente avanço será quebrado por uma aparição repentina de inimigos.

Por isso tudo, não consigo ter a “suspensão de descrença”. Não consigo acreditar que aquilo está acontecendo; não consigo mergulhar naquele mundo, sentir como é estar lá, contemplar os acontecimentos e as ações dos personagens. Horrível.

Os animes que abandonei, a saber, foram: Darling in the Franxx, Devilman Crybaby, Koutetsujou no Kabaneri, Kill la Kill, Noragami.

Espaço Fora da Tela

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Assisto uns filmes e compartilho umas reflexões sobre eles. Perfil por @kevenfongaro, licenciando em Cinema pela UFF. Vinculado ao youtube.com/espacoforadatela.