Sobre a natureza da Animação e As Memórias de Marnie

Acabo de assistir As Memórias de Marnie, um filme (infelizmente) pouco prestigiado do Studio Ghibli. Houve um plano, esse da imagem, que me fez pensar muito sobre a natureza da Animação.

A questão a ser colocada aqui é: o que faz a animação ser o que é? Qual a especificidade dessa arte? Um teórico importante do Cinema, André Bazin, falava de um “mito do cinema total” — a ideia de que o Cinema era a arte destinada a apreender a realidade integralmente.

Há uma passagem linda em que Bazin explica como o nascimento do Cinema, uma arte capaz de representar o real como é, LIBERTOU a Pintura da obrigação de representar o real. Libertou, olha que forte.

Tentar capturar integralmente a realidade na Pintura, segundo Bazin, seria buscar na Pintura algo que é específico do Cinema. As outras Artes teriam outras especificidades, e os artistas deveriam compreendê-las e trabalhar a partir delas.

Mas então, a Animação. Há uma diferença crucial entre o registro da câmera e a Animação tradicional: a câmera registra o movimento, a Animação o cria.

Se você aponta uma câmera para um rosto e a pessoa sorri, e depois você vai assistir à imagem e percebe as covinhas surgindo e a testa enrugando — ora, não é assim na Animação. Só é assim na câmera do Cinema. Na Animação, todo movimento, e com isso eu quero dizer realmente TODO movimento, sem exceção, precisa ser COLOCADO por um Animador. As covinhas só vão surgir no momento do sorriso se elas forem deliberadamente inseridas por alguém.

Olha esse plano de As Memórias de Marnie aí acima. Ele dura uns quatro ou cinco segundos. São roupas em um varal balançando ao vento. Vê aquela cestinha pendurada no canto esquerdo? Ela balança também. Pensar que alguém teve que decidir colocar ali aquela cesta, e em todo o processo de produzir a animação, isto é, de fazer uma série de desenhos, cada um ligeiramente diferente do outro… por quê? Por que atribuir esse movimento?

Sobre o plano que abre o texto: a protagonista volta sozinha para casa. Ela está no meio do nada. De repente, surge uma pessoa de bicicleta. Está tão longe que nem podemos identificar as feições. Mas ei-la. Colocaram-na ali.

Poderíamos falar aí das árvores se dobrando na tempestade e do riacho correndo suavemente e refletindo o sol, mas há algo maior em jogo com os filmes da Ghibli: os personagens.

Sabe, há documentários e livros relatando a prática da Disney de reciclar animações. Em suma, todas as princesas dançam igual porque animar uma vez só e depois fazer um desenho por cima do outro sai bem mais barato do que fazer desenhos diferentes pra cada filme. Ghibli faz precisamente o contrário.

Nesse plano, logo acima, por exemplo, uma personagem chora enquanto outra a consola. As lágrimas, amigxs. As lágrimas. E o jeito de mexer o braço, o jeito de olhar, o jeito de andar. O jeito de andar… é tudo sempre tão único.

Você pode (re)conhecer um personagem da Ghibli pelo jeito que ele anda. Há aquele plano famoso de A Viagem de Chihiro em que a protagonista vai calçar um sapato e bate o pé no chão pra ele encaixar corretamente. Esse gesto é dela; é ela.

O termo “animação”, em sua origem, quer dizer aquilo que é animado, aquilo que é vivo, aquilo que se move, aquilo que possui alma. Quer dizer também o ato de dar ânimo, vida, movimento, alma. A Animação, diferente do cinema, não possui como especificidade a apreensão integral da realidade. A Animação não apreende o real. A Animação postula o real. O animador, pelo gesto da Animação, atribui o real.

O diretor e teórico Sergei Eisenstein falava sobre o Cinema como a mais superior de todas as Artes — o motivo: o Cinema era a síntese. Todas as Artes, que haviam separado-se uma das outras cada vez mais desde a queda grega, uniam-se novamente no Cinema, dizia Eisenstein.

Quê é ser a síntese das Artes perto de atribuir o real? A Animação é a arte que mais aproxima o humano do sopro divino. Ao Cinema resta apreender a Animação!