4 aprendizados a respeito de cocriação

Cocriação tem sido uma das palavras de ordem para os profissionais que projetam com foco na experiência do usuário. As empresas, cada vez mais, adotam tal abordagem de criação como peça fundamental para repensarem suas estratégias de negócio, no intuito de enfrentarem o dilema de melhorar a qualidade dos seus produtos e serviços, além de reduzirem seu crescente custo e manterem-se competitivas. Afinal, se você está criando um serviço ou produto para alguém, não parece ao menos interessante que essas pessoas que irão usá-lo possam ser incluídas no processo de concepção do mesmo junto à outros colaboradores que compõem todo o ecossistema do produto (vendedores, atendentes do call center, desenvolvedores, gerentes…)?

Os benefícios de uma abordagem colaborativa são no mínimo impactantes:

  • Eleva o conhecimento sobre os clientes por meio de um relacionamento mais próximo e direto;
  • Cria novas ideias para exploração de valor;
  • Avalia mais rapidamente o potencial de um novo produto ou serviço;
  • Eleva a confiança, fortalecendo o relacionamento entre a empresa e os consumidores;
  • Torna a experiência de compra tão atrativa que é considerada um fator de fidelização dos clientes.

Então, se você é um profissional de ux, cedo ou tarde, você irá participar ou moderar atividades de cocriação. Pensando nisso, eu listei 4 aprendizados que adquiri nesses anos de experiência com processos colaborativos, dos quais espero que possam ser tão úteis para você, quanto foram para mim.

Vamos a eles:

1 — A linguagem precisa ser clara

Quando uma empresa ainda não tem a cultura da cocriação estabelecida é muito comum ouvir coisas como “Ah, mas meus clientes ou meu desenvolvedor não entendem nada de processos de design, eles iriam vir com ideias mirabolantes, não entenderiam os processos de concepção… como eu explicaria, por exemplo, uma abordagem de “Duplo Diamante” para a faxineira do hospital?

E quem disse que você precisa explicar o significado de qualquer termo do “Fantástico Mundo do Design”?

É preciso entender que a linguagem utilizada em um projeto de cocriação precisa ser a mais simples e autoexplicativa possível. Em um grupo em que existam membros que não entendam linguagens mais técnicas do âmbito do design, deve-se tê-las como referência para saber qual a linguagem a ser utilizada na dinâmica de cocriação. Se precisar, mude termos para outros de melhor absorção.

Lembro de um caso que tive que moderar um Canvas de Proposta de Valor e em um teste prévio não ficou claro para as pessoas o que significava cada um dos termos (Tarefas, Dores e Ganhos). Pois bem, acabei fazendo outros testes e cheguei em três substitutos que funcionaram melhor: #faço (tarefas); #gosto (Ganhos) e #saco (dores). Veja que inclusive a ordem mudou. Isso criou uma ordem que inclusive fez mais sentido para as pessoas: O que eu #faço quando vou ao caixa eletrônico? O que eu #gosto que aconteça quando faço essas tarefas que acabei de citar? E finalmente, o que é um #saco quando acontece ao executar essas tarefas no caixa eletrônico? Transformar aqueles termos em verbos pessoais fez com que os participantes pensassem nas ações e não no significado dos termos.

Bloco de Cliente reformulado para um melhor entendimento

Essa preocupação com o alinhamento do nível de compreensão de todos os envolvidos no time de cocriação merece uma atenção constante. Mesmo com todos os cuidados prévios, ainda assim podem existir membros que fiquem um pouco fora da curva de aprendizado e se sintam deslocados. Nesses casos, se você tiver tempo, antes de realizar as dinâmicas, execute com os participantes atividades-exemplo. E se precisar, mude os termos novamente. Nivele a capacidade cognitiva da turma por baixo.

2 — Utilize material de apoio

Como dito anteriormente, executar testes-exemplos antes das atividades em si, ajudam bastante no entendimento das mesmas. Porém, isso aumenta consideravelmente o tempo gasto dos encontros. Nesse caso, tenha em mãos um material de apoio para os participantes, algo que eles possam consultar a qualquer momento para tirar dúvidas. Ao invés de entregar apenas as atividades a serem executadas pela turma, insira tópicos de ajuda, inclua algumas linhas explicando mais detalhadamente a atividade, coloque exemplos simples e práticos de como executá-la… qualquer ajuda é válida.

Exemplo de um material de apoio impresso que ajudava aos participantes de um workshop de cocriação a entenderem o bloco de produto em um canvas de proposta de valor

Você também pode, no lugar de executar um teste prévio com os próprios participantes, exibir um vídeo explicativo da atividade com um exemplo sendo feito.

3 — Seu maior inimigo: O Tempo

Já participei de alguns encontros de cocriação que não chegarem ao final por causa do tempo. Bem como outros que correram com o cronograma da metade do tempo pro final, entregando um material com uma qualidade abaixo do esperado. Controlar o tempo de cada etapa do processo é primordial. O material de apoio, mencionado anteriormente, já ajuda bastante em otimizar o tempo.

Existem alguns macetes que colaboram num melhor aproveitamento do tempo disponível:

  • Obviamente, controle o tempo! Avise para as pessoas o quanto de tempo elas terão para realizar a tarefa, e depois alerte-as quando chegar na metade e no último quarto de tempo ou obviamente quando elas ultrapassarem o limite.
  • Inclua sempre um tempinho a mais ao calcular o tempo necessário para executar uma atividade. Esse tempo em média é de 25% do original. Exemplo: Se você planejou uma tarefa que irá demorar 20 minutos, tenha em mente que você pode precisar esticá-la em mais 5 minutos. Ou seja, no seu planejamento inclua ela como uma tarefa que leva no máximo 25 minutos. Não conte com 20 minutos cravados, pois você pode quebrar a cara, principalmente se você não testou a dinâmica antes.
  • Se possível faça ensaios das dinâmicas com outros grupos para realizar ajustes que contribuam para um encontro mais fluído e dentro do tempo
  • Cumprir o prazo não garante que o tempo foi utilizado de forma satisfatória. Já presenciei grupos que entregaram atividades no prazo, mas o restante dos participantes presentes não entenderam o que estava sendo apresentado ou o trabalho foi “feito nas coxas”. Cabe ao moderador decifrar o que está sendo apresentado e transformar para algo que todos possam entender.

4 — Trabalhando com um time multidisciplinar

Reunir um grupo de pessoas para participarem de um processo colaborativo não é tarefa das mais fáceis, principalmente quando se trata de deixar indivíduos com cargos de liderança e egos inflados em pé de igualdade com seus subordinados e clientes. É preciso compreender se esses stakeholders irão comprometer o processo de cocriação impondo suas vontades. Nesses casos, o melhor é vetar a participação de chefes autoritários ou que comandem o restante do grupo.

A regra é clara: Em processos colaborativos todos são iguais.

Ainda existe uma situação muito comum em times multidisciplinares que deve ser tratada já no inicio dos primeiros encontros: pessoas que acreditam não serem capazes de colaborar em um processo de design, seja porque julgam seus outros colegas mais experientes ou porque acreditam que não se enquadram no universo “subjetivo” do design, este último conhecido também como o famoso confronto entre “Humanas” e “Exatas”.

É preciso identificar esses perfis e trabalhar suas deficiências, lhes dando uma injeção de ânimo e mostrando que todos podem contribuir na fase de concepção de uma solução com suas próprias habilidades. É justamente essa troca de visões e experiências que fazem o com que a cocriação seja tão rica.

Não se constrói um quebra cabeças com peças iguais.

Trabalhar uma abordagem mais simples, por que não dizer lúdica, para tarefas/dinâmicas contribui para tirar um pouco desse peso de ter grandes habilidades ou experiência para criar algo. Ninguém precisa saber usar um computador ou softwares para dar vida à suas ideias e propostas. Desenhe (todo mundo sabe fazer um retângulo e um círculo), use peças de lego ou material de papelaria para “prototipar” as ideias. Não transforme o ato de criar em algo restrito à poucos. Alie isso aos termos simples e você terá um grande ambiente colaborativo no qual todos estarão com mesmo entendimento.


Bem pessoal, esses foram apenas alguns dos aprendizados que adquiri durante minhas experiências com dinâmicas de cocriação. A priore, podem até parecer bobagem, mas para quem pretende ou já modera processos colaborativos é imprescindível ter um certo domínio dos mesmos. Visto por outro aspecto, os 4 pontos apresentados são, na verdade, dicas de como minimizar alguns desafios que todo profissional de ux enfrenta ao “encabeçar” atividades colaborativas:

  • Como nivelar o conhecimento dos participantes?
  • Como fazer com que todos entendam as atividades?
  • Como otimizar o tempo dos encontros?
  • Como trabalhar com um time multidisciplinar?

É claro que existe uma infinidade de outros tópicos que podem enriquecer, ainda mais, esse esboço inicial sobre cocriação. Espero escrever um pouco mais sobre o assunto em outros textos, bem como aprofundar-me mais em alguns tópicos abordados aqui. No mais, lembre-se que a cocriação lida com a capacidade que todos nós temos de nos relacionarmos e de aprendermos uns com os outros. Esse é o maior aprendizado que você pode adquirir.