Às doze

Meio-dia e o Sol no alto, projetando sombras terra abaixo, erguendo o suor do chão e levando-o às nuvens. O fumo no beiço, queimando vazio, subtraído de toda emoção, todo sentido e vontade. A hora do almoço é um caldeirão de sabores que eu não experimento. Ao redor, a secura do ar, a quentura do asfalto, as pessoas se esbarrando ao tentarem se evitar. Tão calmo, tão exótico, tão subitamente furioso, eloquente e ininteligível. Paradoxalmente, tudo. Sobe a fumaça, cerra-se o pulmão, a bituca queimada vai pra calçada, as mãos à cabeça. O que é que se faz numa hora dessas? O que é que se faz nas outras? A hora do almoço acaba, com ela as questões. Bate o ponto, liga a máquina, batuca o teclado, caminha pro fim do dia. Vai, questiona não. Vida que segue, leve feito asa de avião. Abismo abaixo, penhasco acima. Acaba o dia.

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