As questões

“Aí me pergunto se estou certo…”

“Não dá pra saber.”

“Então que se danem!”

“As certezas?”

“As questões.”

Não há nada na vida a ser perdido, se nunca juntarmos nada. Isso parece simples demais e pareceu ser verdade, até que perdi o que não juntei.

“Se você não questiona, aceita.”

“Vou passar a aceitar.”

“Tudo?”

“O que vier.”

“É o mesmo que tudo, e isso é muita coisa. O que houve com você?”

“Filhos.”

“Você não teve filhos com ela.”

“Nem vou ter…”

“Então o que?”

“Estou pensando no que não tenho, definindo coisas… Olha, não é nada, só estou pensando no futuro, tudo bem?”

É tudo um erro.

“Ela me largou.”

É tudo uma extensão daquele erro, que é uma extensão de outros, que são extensões de uma sujeira que mancha tudo o que era puro, tudo o que deveria continuar a não depender de outras coisas para existir, muito menos das extensões que arrastamos vida afora, como se fossem tomadas ou rabos pendendo das nossas bundas e ligando-se a tudo o que existe. As extensões, as conexões, os fios que nos prendem aos outros e às aspirações deles e às vontades deles em relação a nós… E ao descaso deles em relação a todo o resto… É tudo um erro.

“Pra você, tudo gira em torno dela.”

“E não é pra ser assim?”

“Já se passaram quatro semanas.”

“Ninguém supera nada em quatro semanas.”

“Até as dores do parto são superadas em quatro semanas.”

“Eu não pari ninguém.”

“Mas você queria ter filhos.”

“Queria, mas…”

“E com ela.”

“Era, só que…”

“E não vai ter.”

“Porra, eu sei disso.”

“Você precisa se por em ordem.”

Preciso.

“E por tudo pra fora, é uma maneira de se livrar daquilo que você não quer mais.”

“Mas se eu me livrar de mim, o que vai restar?”

“Para com o drama, se ponha em ordem.”

Preciso voltar ao começo, ao que aconteceu, às certezas que eu não tive e às questões que deixei de lado. Estão todas lá, na memória, e quando me dou conta disso me lembro que odeio o passado, odeio tudo o que é preciso ser lembrado para existir. Se você precisa se lembrar de algo para saber de algo, então isso não vale a pena saber.

De volta ao começo, de volta a meses atrás e ao apartamento em cima da padaria que vendia os piores sonhos do mundo, ao lado do bar que não respeitava lei alguma, eu estava preso em uma guerra constante ao terror. Ela estava lá e eu na sua frente, uma figura patética quebrada em partes de traumas passados postos juntos com muito esforço e pouca habilidade. Ao menor vento, diante do menor contratempo, eu sentia que iria desabar pela pressão da vida adulta, a vontade de me realizar plenamente sem ter a mais puta ideia de como fazer isso ou do que isso significava. Entre as pernas dela eu explodia em coitos interrompidos, repletos de ansiedade e desejo, quase nunca prazer. Eu não queria ser quem eu era, eu queria mais, mas aquilo era o que tinha, e eu não entendia por que ela só queria a mim. Aí é que estava o paradoxo de tudo, o paradoxo do nada.

“Quando estamos com alguém que nos quer é diferente… Ela gostava de mim. Por piedade, por pena? Não sei, nem me importo. Ela gostava…”

“E o que isso tem de mais? Muitos outros gostam.”

“Não, você não está entendendo… Um dia, ela me trouxe o jornal e disse: tem uma coisa aí que te interessa. Folheei, virei páginas, outras páginas e mais páginas e não achei nada que me interessasse. Perguntei o que era. Ela abriu no caderno dos classificados e me mostrou um anúncio que dizia ‘Aceitam-se cronistas’.”

“Aceitam-se cronistas?”

“Aí, ela me empurrou um bloco de papel amarelado, um lápis sem apontar e insistiu que eu escrevesse umas histórias que contava sobre a minha infância, a maior parte delas inventadas. Minha letra não era boa, eu não sabia pontuar nada. ‘Não importa’, ela disse. As coisas que eu escrevi pareciam ser boas; mostrei para pessoas, me confirmaram que eram realmente boas. Levei ao jornal que precisava de cronistas, também acharam boas. Eu tinha um emprego, meu primeiro emprego depois de um longo e paupérrimo hiato. E meus textos eram bons. Eu não sabia sobre essa parte de mim, mas ela, sim. E daí que eu estava oco do que sabia de mim? E daí, se ela estava comigo e eu percebia que não estava feliz, não completamente, que eu era cada vez menos o sujeito que ela havia conhecido anos atrás? Ainda assim, ela conhecia minhas partes ocultas.”

“Quanto tempo isso durou? Sua admiração por ela…”

“Acho que podemos chamar assim, não é? Não sei, alguns meses… Depois voltou tudo à mesma, então eu a mandei embora. Aí, comecei a escrever coisas ruins, muito ruins… Até as pessoas que trabalhavam comigo há pouco tempo no jornal se assustaram. ‘Você não era assim, escrevia coisas obscuras, mas não era assim, tinha paixão nas coisas que você fazia, escondida entre as letras… O que houve com você?’ E eu não sabia responder à pergunta, eu não sabia o que dizer nada sobre o que falavam, porque não fazia sentido.”

“Algo faz?”

“Todo mundo diz isso, em todas as histórias, em tudo quanto é esquina, em todas as falas vazias das novelas que passam à noite.”

“E todo mundo está certo.”

“Não, as novelas nunca estão certas. Nem eu. Agora, ando por aí sozinho, moro sozinho, durmo sem ninguém ao meu lado e não entro no meio das pernas de mulher alguma durante a madrugada. Estou com fome, fogo, suor, sono, ressaca, raiva, vazios a mais… Muitos, muitos cabelos a menos. Estou me apagando.”

“E como você tenta reagir?”

“Escrevendo.”

“Nenhum resultado?”

“Nenhum aparente.”

“Algum não aparente?”

“Talvez. Agora, pontuo minhas frases.”

“Você tem muitas teorias a respeito disso, não tem?”

“Sim…”

Pontuava minhas frases porque tudo tinha acabado.

“Nenhuma satisfatória…”

Pontuava minhas frases porque havia amadurecido.

“Uma ou outra serve pra alguma coisa…”

Pontuava porque era preciso pontuar.

“As coisas precisam de seus pontos finais.”

“Não ligo.”

“Você sabe que está vivendo no passado?”

“Eu já disse que não gosto do passado.”

“É tudo o que você tem.”

De volta ao futuro, vejo que as coisas que vivi, as coisas que narrei, não são nada. Todos passariam sem vivê-las ou lê-las, sem que isso lhes causasse maior mal que uma tosse seca provocada por cigarros Malibu. Pode ser câncer, não pode? Pode. E é tudo o que pode ser, assim como eu, literal de menos e limitado demais.

Semanas atrás ela estava comigo e eu tinha em quem me apoiar quando sentia todas essas merdas que estou sentindo agora. A diferença, hoje, é que só tenho a mim durante as noites arrastadas e as horas mal iluminadas que não querem passar. E embora eu tenha mandado à merda as perguntas e as questões, a decência, a vida adulta e a constância, não posso fazer o mesmo comigo. É estranho perceber a falta quando ela é só o que você tem, quando você perde o que não juntou porque era burro demais ou menino demais ou incapaz de existir para além dos seus limites.

“É como eu disse: se eu me livrar de mim, o que vai restar? Agora, nem mesmo ela.”