As sete quedas

Ele não era acostumado à felicidade. O sorriso aparente não encontrava eco em nenhum outro traço do seu modo de agir. Suas roupas, perfeitamente cortadas e com os vincos certos, sustentavam os quase dois metros de forma que osso algum conseguiria. Ele costumava dizer que um homem é o que um homem veste, o que o fazia se perguntar à noitinha, em segredo, quem ele era durante a nudez do seu sono.

Pela manhã, sempre andava na mesma calçada rumo ao trabalho. De tesoura na mão, destruía tecidos para refazê-los em todos os tipos de roupas. Era particularmente afeito a camisas e paletós e sentia certa aversão a calças e coletes, que o oprimiam.

Com o cair da tarde, fechava a porta de vidro e retornava à rua, pegando o caminho de casa. Não havia árvores por onde passava e o tráfego não o incomodava. Vez ou outra, uma senhora atravessava na sua frente, voltando do mercado carregando sacolas de papel que pareciam ignorar a força existente em braços velhos. Ele a ajudava algumas vezes. Na maior parte, não.

Em casa, tinha uma lareira que havia herdado de quem quer que a tenha construído no pequeno apartamento. A chaminé estava cheia de fuligem e o principal propósito da lareira era defumar os móveis e o seu corpo magro. Vez ou outra, defumava também mais pessoas, que o visitavam com uma frequência tão instável quanto elas mesmas.

Vivia sozinho. Ele mesmo preparava seus sanduíches de creme de amendoim e atum — um em cada pão, embora tenha juntado os dois ingredientes em uma noite movida a álcool. Não era uma mistura que recomendaria a quase ninguém.

Não fumava mais. Continuava a beber nas noites de insônia, mas era só. Sempre que podia, ia ao cinema, preferencialmente durante as matinês, que eram mais baratas. Deixava a loja fechada enquanto se divertia com comédias pastelões e romances censurados por mães de família. Talvez perdesse mais dinheiro fazendo isso do que se trabalhasse durante a tarde e fosse às sessões noturnas, mas esse não era um cálculo que queria fazer.

Ele era ordinário, como somos todos. De certa forma, era também diferente, como uma parede completamente branca com uma única parte suja que a diferencia de todas as outras paredes brancas. Tinha a sua e a guardava muito bem, sob camadas de tecidos e casacos de inverno. Estava sempre com frio. Nos dias de calor, parecia não se importar com as mangas longas que tapavam até mesmo as mãos. Havia coisas que ele queria esconder, coisas que não conseguia ignorar. Ele mesmo parecia ser uma delas.

Naquela terça-feira, chegou em casa e preparou o jantar de sempre. Sentou-se em frente à tevê e assistiu a algumas horas de seriados de décadas atrás. Ele gostava de como as imagens gravada distorciam a realidade, saturando as cores e estourando os contrastes. Ao fim do dia, deitou-se para dormir, tirou a roupa, guardou os óculos e apagou as luzes.

Sussurrou para ninguém mais ouvir: “Quem sou eu?”.

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