Não se bebe o vazio

  1. O que mais me incomodava nela era o jeito como cruzava as salas e as portas, descia as escadas, corria pela rua e pegava o ônibus, sem se preocupar com os cabelos voando, as pernas chocando-se uma com a outra e os braços riscando semicírculos no ar. Ela não se preocupava com nada e isso me incomodava. Parecia passar por cima de tudo, sem se dar conta de que havia tudo à frente dela. Parecia ser dona de si.
  2. Ela não precisava de mim. Não precisava de mim e sabia disso. Ganhava o mundo sem que eu a mostrasse como, fazia mil coisas das quais eu só sabia a metade, enquanto eu me enfurnava nos meus próprios afazeres e não dava conta de um. Ela corria enquanto eu andava, voava enquanto eu corria. Sabia fazer molhos e sopas, mesmo odiando sopas. Eu não sabia fritar ovos. Eu gostava de ovos.
  3. Ela queria gostar de mim. Eu queria não gostar dela.
  4. Nós nunca vivemos juntos as dúzias de anos que prometemos viver. Enquanto ela se consumia em festas e bebidas, estofando o corpo com álcool e outras alegrias, eu me perdia e me afogava em copos vazios. Eu não tinha forças para encher meus copos. Não tinha forças para encher meus dias. Não se bebe o vazio.
CC dcmaster
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