Como eu aprendi a parar de me preocupar e amar a invasão islâmica

Basta ter novo atentado terrorista para que amigos vociferam contra a islamização da Europa. É um erro que também já cometi e do qual fui curado pela leitura de Submissão, do Michel Houellebecq, livro ao qual dei o subtítulo mental de “Or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Islamic Invasion”. Em outras palavras, não sei o que fazer a respeito do problema da Europa, mas sei que o islã não é o problema.

Antes de mostrar como o islã viria a dominar a França e depois a Europa num futuro próximo, o narrador de Houellebecq, François, toma o cuidado de deixar claro que o verdadeiro problema do continente está longe de ser o islã, assim como o verdadeiro problema de quem tem AIDS está longe de ser diarreia ou sarcoma de Kaposi, embora essas mazelas se sigam inexoravelmente à destruição da imunidade. Nos primeiros capítulos, François descreve a miséria de sua vida sentimental: “Saía” com uma estudante por semestre, como estudante primeiro e como professor depois, em relacionamentos superficiais que acabavam nas férias e cujos participantes esforçavam-se para não criar intimidade que pudesse resultar em sofrimento. Depois, ao encontrar já mais velhas algumas dessas namoradinhas, ele observa que, suas carnes caídas, ninguém queria mais saber delas, passava a esperança de casamento e elas se tornavam massas flácidas de solidão e carência. As coisas são diferentes para os homens, nota, mas talvez nem tanto: para saber se o pau ainda funcionava, François começa a ver pornografia, e não pode deixar de notar que a exclamação “ai, porra, estou gozando!”, que o ator de um filme prototípico faz quando duas ninfas lhe chupam o pau, “era o que se podia ouvir de um povo regicida”. Como se o leitor já não estivesse inebriado pela constatação de que a França e o Ocidente são hoje pouco mais que bilhões de pessoas gritando “ai, porra, estou gozando!”, segue-se a conclusão do capítulo com a frase que é o melhor símbolo que conheço do estado atual da nossa civilização: “Seja como for, eu também ficava de pau duro na frente do meu iMac 27 polegadas, portanto tudo ia muitíssimo bem.”

Neste ponto, o leitor inteligente já entendeu o seguinte: Se não fosse o islã, seria qualquer outra coisa, talvez até pior, que pudesse dar um pouquinho de sentido, ou no mínimo de hipocrisia confortável, à vida. O islã é um acidente histórico que calhou de estar no lugar certo no momento certo. Ele não está exatamente conquistando a Europa, apenas ocupando o espaço vazio. Como, desde o início dos tempos, algo sempre vence o nada, o ser é sempre mais que o não-ser, ele é imbatível.

Quanto mais se desenrolam a vida de François e daqueles que o cercam, mais evidente fica que não consistem em nada além de vazio temperado por doses cada vez mais dolorosas de doença e menos prazerosas de sexo. Ainda que seja tudo levemente caricatural e inverossímil, sabemos que não está muito distante da realidade. Quando o domínio islâmico é iminente e os pais da judia Myriam, o mais próximo do amor que François já conhecera (uma vez que ela “contraía sua bucetinha à vontade”, “rebolava o traseiro com uma graça infinita” e que “cada felação dela bastaria para justificar a vida de um homem”), decidem partir para Israel, é com estes termos que ela explica por que não quer ir embora: “Eu gosto da cultura francesa! Gosto… dos queijos!”

Se aqui a cultura francesa é reduzida aos queijos e antes a história francesa fora reduzida a um homem gritando “ai, porra, estou gozando!”; se um bom boquete é o máximo de sentido que François consegue ver na vida e um pedaço de Brie é o máximo de valor que Myriam consegue ver na França, não é coincidência: embora ele seja um acadêmico culto e respeitado, a imaginação de François, assim como a daqueles que o cercam, é composta apenas de dois elementos. Não existe fato ou evento que não interprete pelas lentes ou da gastronomia ou do sexo. Quando visita a casa do pai recém-falecido, só consegue pensar que a decoração parece um cenário dos pornôs amadores alemães dos anos 70; quando medita a respeito de como os usos culturais se perdem, lembra-se de que leu em uma história dos bordeis nomes de práticas sexuais exóticas do século XVIII que hoje não fazemos ideia do que significam.

Ora, se nada além de buceta e Camembert lhe importa, o islã não pode ser seu inimigo. Pois de uma e do outro ele pode lhe dar mais e melhor que a civilização liberal laica, e ainda pode lhe confortar o espírito convencendo-o de que isto é o que Deus quer para você, que sua vida é cheia de sentido e que você está em acordo com a natureza e o cosmos.

O primeiro lampejo, ainda mais ou menos inconsciente, que François tem de que “a mistura do Brasil com o Egito” produz “um agito quente que nem areia do Saara” que “faz a cobra subir” (cf. TCHAN, É; “Dança do Ventre”) ocorre quando, pouco antes da vitória da Fraternidade Islâmica, ele especula em um shopping quais lojas fechariam e quais permaneceriam abertas sob o islã. Quanto à loja de lingeries não havia a menor dúvida: as muçulmanas eram suas melhores clientes, pois se a mulher ocidental vai trabalhar sedutora e veste um pijamão ao chegar em casa, esgotada e fria, Cinderela para estranhos e Gata Borralheira para o marido, a avidez com que as muçulmanas se cobrem diante de estranhos é paralela aos ilimitados artifícios de beleza e sensualidade que têm diante do marido.

O segundo insight ocorre no momento em que François contempla as duas esposas de Redinger, o reitor da Universidade Islâmica de Sorbonne, um guenoniano muçulmano há mais de uma década que acaba por convertê-lo: uma fresca menina de 15 anos reservada ao sexo e uma simpática senhora de 40 que se dedica a cozinhar quitutes. Além disso, os problemas dos homens tímidos, incapazes de cortejar o sexo oposto, acabarão: casamenteiras islâmicas lhes arranjarão casamentos com as adolescentes mais durinhas do pedaço. Que mais pode um homem querer? E que mais podem querer as mulheres além de um marido que as ame, as proteja e as sustente, mesmo depois de as carnes caírem? Qual delas preferiria arrancar, seja a murros ou a boquetes, uma posição empregatícia medíocre depois de décadas de faina, às custas ou de ver o marido buscar em outras a energia sexual que ela dedicou ao trabalho ou de tornar-se uma solteirona despencada?

De fato, o reitor Rediger, muçulmano exemplar, não é muito diferente de François. Os argumentos teológicos que dá a favor do islã são os mais rasos concebíveis; resta claro que os fatos que o convenceram a tornar-se muçulmano foram de ordem… gastronômica e sexual. Depois de militar no tradicionalismo católico por alguns anos, ele se convence de que o cristianismo não tem salvação quando o bar do Hotel Metrópole, em Bruxelas, fecha as portas. Que espécie de civilização permite um absurdo desses, afinal de contas? Mas tem mais: Para o reitor, o livro que melhor capta a essência do islã é o romance sadomasoquista Histoire d’O, uma espécie de Cinquenta tons de cinza menos tosco, que segundo ele mostra como deve ser a relação da mulher com o homem e do homem com Deus. Por fim, os argumentos de Rediger a favor da existência de Deus são retirados diretamente da ciência astronômica, e a defesa da poligamia se faz com base na seleção natural darwiniana, de modo que o detalhe de ser um cientista ateu não precise impedir ninguém de desfrutar das delícias eróticas e gastronômicas do islã. Quem poderia resistir?

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