O filho do rico e o filho do pobre

A grande ilusão das pessoas da classe média tradicional (aquilo que as esquerdas chamam de “elite”) que têm hoje de 25 a 45 anos foi o diploma universitário. Disseram-lhes que a prioridade primeira da vida era o ensino superior; que bastava obtê-lo para alcançar um padrão de vida melhor que o de seus pais. Essas pessoas, assim, muitas das quais não tinham o menor desejo de estudar nem o menor talento para isso, seguiram o conselho dos velhos e, às vezes com grandes esforços, conquistaram seus diplomas. Só para descobrir que a graduação não lhes garantia ganhos maiores do que os de um vendedor, um corretor de imóveis ou um eletricista. Foi neste ponto que apareceu o lulismo.
Entregue ao seu curso natural, a ilusão da classe média teria se dissipado em uma ou duas gerações. O lulismo, no entanto, expandiu-a para toda a sociedade. Mediante programas como o Pro-Uni e a expansão destrambelhada das vagas nas universidades federais, as classes baixas conquistaram o direito de participar do delírio coletivo que antes era privilégio da classe média, com a diferença de que, para elas, elevaram-se à décima potência tanto as benesses do futuro prometido quanto o esforço requerido para alcançá-lo. Mas os resultados não foram melhores. Sabe-se que, em Cuba, os taxistas e os pedreiros são formados em medicina. É para isso que o lulismo encaminhou o Brasil.
Um olhar de soslaio para o mundo teria revelado que a ampliação indefinida do sistema universitário não era o caminho correto para a ascensão social dos pobres. Ao contrário, o próprio fato de o ensino superior já não ser mais nenhuma garantia de ascensão indicava que o Brasil estava no rumo certo. Nos países desenvolvidos, a universidade é uma possibilidade entre outras; ninguém precisa dela para ter uma vida confortável. Em lugares como os Estados Unidos, é perfeitamente comum e aceitável um jovem de classe média alta começar a vida profissional logo após a conclusão do ensino secundário, sem passar pela universidade, pois ninguém precisa de diploma para desfrutar de uma vida confortável; pois, precisamente, um vendedor, um corretor ou um eletricista pode ganhar tanto quanto um engenheiro. Em outros países, como a Alemanha, quase tudo o que consideramos profissões universitárias são profissões técnicas, aprendidas em cursos de dois anos de duração, voltados para a prática; os cursos verdadeiramente universitários são aqueles dedicados ao conhecimento abstrato. E, novamente, ninguém precisa de diploma para ganhar dinheiro.
Não pode ser de outro modo por dois motivos. O primeiro é que a maior parte das pessoas não têm nenhum desejo de empreender estudos superiores e nenhuma aptidão para isso. Forçá-las a cursar uma universidade é uma crueldade com elas e uma receita para diminuir o nível geral do ensino superior, que terá de adequar-se à nova realidade dos alunos despreparados. O segundo é que a maioria das profissões não requer formação universitária. Ninguém precisa passar quatro anos em uma universidade para ser caixa de supermercado. Não faz nenhum sentido, pois, atrelar a ascensão a essa formação; isso significaria, em qualquer cenário possível, que a maioria da população continuaria pobre. O caminho é o oposto: dissociar a ascensão social da formação universitária, de modo que qualquer caixa de supermercados não ganhe muito menos que um engenheiro.
O melhor a fazer seria, portanto, incentivar a valorização, que já vinha ocorrendo, das profissões que não exigem formação universitária, de modo que o curso superior deixasse de ser o meio por excelência para a ascensão social no país. Mas tal prática não daria ensejo a slogans como “o filho do pobre agora faz faculdade” e, portanto, não foi adotada. Distribuir diplomas como quem distribui santinhos era inócuo e perigoso como método de enriquecer os pobres, mas fácil e eficiente como método de vencer eleições. Por isso chegamos à situação em que, de fato, o filho do pobre faz faculdade, mas isso não lhe serve de nada: o ensino universitário foi arruinado pelo ingresso de milhões de pessoas que não eram capazes de acompanhá-lo e o diploma, naturalmente, perdeu todo o valor, pois já não garante a competência de ninguém e não há quem não o tenha. Se você suou, na faina, durante anos, para conquistar seu diploma, na esperança de que ele pudesse lhe dar uma vida melhor, lamento informar: ele não servirá para nada. Em dez anos, terá tanta credibilidade quanto o apreço do PT pela honestidade na política. Seu esforço foi inútil. O grande legado do lulismo para a educação foi a destruição definitiva do ensino universitário pela expansão destrambelhada e a desvalorização do diploma que foi uma consequência natural.
(Evidentemente, fora a questão da ascensão social, seria desejável dar aos pobres inteligentes e talentosos que o quisessem a possibilidade de acesso ao ensino superior. O caminho para isso era dar-lhes a oportunidade de competir em igualdade com os ricos mediante a melhoria do ensino secundário, não ampliar indefinidamente as vagas do ensino superior. Assim, ingressar ou não na universidade seria uma questão de aptidão, não de classe econômica. Mas, de novo, esse trabalho seria mais lento, menos perceptível e traria assim poucos dividendos eleitorais.)
A frustração das grandes hordas a quem se prometeu um novo mundo e a quem, no fim das contas, foi dada uma vida pior do que a dos pais não é um elemento desprezível no ódio que todas as classes, no momento, devotam ao PT. Mas nem tudo deu errado: se em Cuba os médicos são motoristas de táxi, no Brasil eles são motoristas de Uber. É o progresso.