Ao deitar

Todo santo dia: apagar a luz, deitar a cabeça no travesseiro olhando, através do escuro, para o teto. Na primeira virada para o lado, lembrar que tem dormindo mal justamente por causa do travesseiro, recordando que deveria comprar um que não precisasse dobrar, nem amaciar e nem botar outro por cima, que inclusive essa era uma saída obrigatória.

Quando chega em seu celular uma notificação, logo lembra que é melhor desconectar da internet antes de tentar dormir, porque a iluminação não deixa os olhos ficarem pregados. Mas a mensagem é importante. É importante que seja lida ao acordar.

Sua mãe nem sempre liga ou mantém contato pelas redes sociais. Aliás, citar redes sociais não é nada cabível aqui. Ela tem acesso à internet, mas não tem seu próprio celular ou computador. O que também é meio óbvio já que ela não sabe mexer direito nem em um e nem em outro. Aqui é uma sucessão de sucessões: primeiro porque ela não é da geração conectada e não ligou muito quando essa febre começou a se espelhar pelo mundo; depois que ela sempre preferiu os bons filmes e livros. Gostar de Hitchcock faz ela ser mãe número 1. Hoje em dia acha que devia ter aprendido, mas somente para ver coisas sobre cultura, que aliás é muito conhecedora, e poder buscar conhecimento mais afundo e com mais opções, o que nem sempre os livros oferecem.

Pera aí, por que eu não estava pensando em primeira pessoa?

Agora vai

Eu, apesar de manter contato ~virtual~com algumas pessoas, penso que deveria ter ainda mais. Na verdade, não sei. Prefiro muito mais sentar perto, olhar no olho, perceber reações ao falar tal assunto. Me sinto sensível ao jeito do outro, ao olhar, às palavras. Digo sensível quando quero explicar que tenho uma percepção grande. Sou um observador tão grande que me perco na conversa ao notar as várias outras formas de comunicar que nossos corpos têm. Posso estar enganado. Devo estar grandiosamente enganado. Às vezes sou apenas um distraído mostrando pra pessoa um desinteresse pela conversa, o que geralmente não faço (de propósito) se o conteúdo é digno ou pelo menos atraente de alguma forma, nem que divertidamente casual. Nossa! Se for assim, coitados dos que já conversaram comigo em balcões de bar. As luzes, os garçons, as pessoas falando mais alto, o copo pra equilibrar. O corpo pra equilibrar. Do que será que estávamos falando?

Que coisa. Realmente não se sabe se é o travesseiro que está atrapalhando ou é meu cérebro mesmo que não desliga e fica me mostrando cenas do cotidiano, me fazendo lembrar coisas. A insônia é assim. Dia desses eu senti até um aroma que não sentia há tempos. Aí eu vou divagando. Meu cérebro me dá ideias, algumas eu anoto, algumas eu gravo e várias outras eu devo de esquecer. E no meio do turbilhão de pensamentos, lá quando você já está entre a chateação do sono fugido e a satisfação (ou falta dela) pelos pensamentos trazidos, você dorme.