As canecas estampadas que minha mãe odeia

A minha mãe não gosta dessas canecas com fotos de família ou bebês; com frases de amor e o ano em que foi feita: “2010”. Deus o livre uma caneca com “Parabéns” ou mesmo “Deus é fiel”. Isso é brega. Totalmente brega e não combina com a cozinha.

Ela ama o que ela faz. Cuidar de crianças é algo que ela faz com muito carinho e esperança no futuro dos pequenos. Cuidar de criança é um termo carinhoso, claro, porque ela é professora. Já trabalhou muito em ensino de primeira a quarta série e depois decidiu mudar para creches. Literalmente ela cuida de crianças em semestres que fica no berçário, onde só tem bebês gordinhos e de pele macia; nos outros semestres em que ela está com uma turma de 2 a 5 anos, por exemplo, ela faz outra coisa que ama: pequenos projetos de ensino que são gigantes para crianças tão pequenas. Nessa fase ela dá aula, mas ao mesmo tempo cuida de crianças, caso você queria concordar comigo.

Hoje de manhã mesmo, eu estava aqui na cozinha dela tomando café numa caneca branca com o dizer “Turma de 2010” e o retrato dela de jaleco branco e umas crianças ao redor que não alcançavam sua cintura. Pois é: as escolas têm esse costume de fazer como lembrancinha uma caneca para a mãe dos alunos e professores. Minha mãe, como ama o que faz e adora seus alunos, traz a caneca para casa com prazer, afinal, a fotinho ali é uma lembrança duradoura.

A minha irmã é formada em Ed. Física. Logo que começou a trabalhar, foi em turmas de crianças. Fazer eles se alongarem, correrem, entender a importância do exercício. Não durou muito para ela chegar em casa com uma caneca branquinha e sua foto abraçada com várias pestinhas. Tá ali no armário da minha mãe e vez ou outra chega a vez dela para ser usada com café dentro. Minhã mãe não negaria de guardar em seu armário a caneca que faz lembrar que minha irmã já deu aula na Vila da Glória. Para quem não sabe a Vila fica do outro lado do mar do Centro Histórico de São Francisco do Sul. Quando minha mãe começou a ser professora e ainda estava pegando experiência em cuidar de crianças, foi lá onde ela aprendia. Atravessava o mar de lancha todo santo dia para lecionar e voltava no fim da tarde. E olha que ela voltava pra cuidar de mim e de minha irmã que éramos super pequenos nessa época. Imagina se ela jogaria a caneca fora.

Esses tempos aí, há alguns anos, na verdade, foi Dia dos Pais. Nesse parágrafo eu já nem preciso mais me demorar: minha irmã chega com uma caneca do Dia dos Pais. Minha imaginação é borbulhante e de longe eu já imaginava minha mãe revirando os olhos falando que dali uns dias ela teria um jogo de canecas todas estampadas, bem bregas do jeito que ela não gosta. Se duvidasse algumas teriam arte do Word com fotos de má qualidade. Mas o dia era especial e a caneca era bonita: tinha uma foto do pai e da mãe, tinha uma foto minha e da minha irmã, super descolados com óculos de formatura e roupas sociais e uma foto de nós todos: aquela coisa bem pais atrás e filhos ainda crianças na frente, em pé, todos sorrindo. Quem teria coragem de dar essa caneca ou jogar fora? Também está ali no armário da minha mãe.

Ao todo devem ter umas seis canecas impressas aqui em casa. Um jogo de meia dúzia, não é mesmo? Eu gosto porque são grandes e cabe bastante café ali. De vez em quando você está distraído e (oops) “olha eu orelhudo e criança nessa caneca”.

Se você ou um parente um dia chegar com uma caneca de escrita “Feliz 2017”, por exemplo, ela vai dar um jeito de esconder ou jogar fora, porque ela não gosta dessas coisas bobas que não combinam com as louças. Agora se fizer um sentido maior, talvez tomemos café nela um dia, porque essas ela guarda no armário de baixo, bem atrás de todos os outros copos, afinal, ela odeia canecas estampadas.

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