Retrato moderno minimalista

Nós temos vinte e tantos anos, mas não somos inocentes. Muito pelo contrário. A palavra inocência talvez nem caiba aqui. Eu queria falar mesmo é que temos anseios. E que sabemos das coisas. E que já caímos na real. E que não somos adolescentes bobos e sonhadores.

O mercado. O mercado tá difícil pra caralho. Os nossos amigos estão sendo demitidos. A garota legal e quietinha que sentava do seu lado ontem, retirou seu vaso de flor da mesa e hoje nem as anotações dela estão lá. É corte de custos, de café e de pernas. Nossos pais estão sendo demitidos.

Nosso país foi demitido.

Existe uma virada de chave na vida e ela é pesada. Ontem tudo era OK. Era massa. Ontem nós passarinhos por cima de qualquer obstáculo e desviaríamos qualquer edifício, por mais alto que ele fosse.

Ontem a cerveja era doce. Hoje ela é cara. E olha que cerveja sempre foi amarga.

Ontem era mais fácil sair, se divertir, não se irritar e não se cansar. Hoje sair custa. Custa sua paciência por que você entende melhor as coisas, as pessoas e as situações; custa sua energia porque agora é mais fácil ficar cansado; custa dinheiro que nós nem temos; custa sua vida se um homofóbico te ver sorrindo e pensar que é pra ele; custa cada minuto porque agora você é adulto e enxerga todas essas sujeiras do mundo e pra se divertir precisa filtrar de ~um~tudo.

Pronto: da noite pro dia uma mochila com mais peso do que (nossa consciência) nosso próprio corpo alimentado por açúcares e vários químicos, paira sobre nossas costas e quer te fazer parar pra sentar, cansado, em qualquer calçada na beira da rua. Mas pensariam o quê? Que sou mendigo?

Capaz de levar um chute na boca.

O “cair na real”é bem foda e tenho sentido e assistido isso dos amigos próximos. É como se perder dos pais quando é pequeno, só que agora sem encontrar eles depois do choro. É como quando você tá num lugar desconhecido e acaba a bateria do celular.

As únicas coisas que você tem certeza são as mais presentes, as mais palpáveis. Claro que dizem para nos preocuparmos com o que temos agora, mas que pessoa em ~sã consciência~ fica de boa não sabendo do futuro? Eu nem falo de futuro de carreira ou futuro de segurança financeira. Eu falo de preocupação com futuro e solidão. Futuro e sentido. Futuro e felicidade. Será que queremos ser reconhecidos? Será que queremos manter os contatos que temos hoje e só ir amadurecendo e melhorando as coisas? Queremos ter melhores condições?

Nós somos ansiosos.

A cultura da internet e dos despertadores e das “facilidades” abusivas e plásticas nos fazem querer que tudo seja muito breve, aconteça já, seja sempre novidade e o resultado disso é uma superficialidade absurda.

Eu roo minhas unhas, meus amigos fumam cigarros até que a pressão caia por terra. Temos doenças respiratórias, digestivas, nervosas e mentais.

Dormir é difícil quando se tem insônia. Parece redundante, mas é preciso reforçar. Reforçar que temos inseguranças, medos, anseios ~e mesmo assim, e talvez e ainda~ somos heróis porque não queremos mostrar vitória pra ninguém, mas ~acordamos~ todos dias, enfrentamos as nossas próprias culpas na frente do espelho e ainda levantamos nossas bandeiras pra um país que tá nem aí pro futuro dos que virão.