O corpo e a sociedade

Em algum momento desta conturbada semana de natal e preparativos para o ano que segue, você se deparou com a hashtag #GordofobiaNãoÉPiada.

Tag criada pela youtuber e digital influencer Alexandra Gurgel (@alexandrismos) acompanhada de uma resposta inteligente e com classe ao apresentador Danilo Gentili.

Gentili já é conhecido nacionalmente por suas piadas de teor machista e homofóbico, mas a bola da vez é a gordofobia.

Pra quem não entendeu, ou não viu a postagem, o apresentador publicou em sua conta pessoal no Twitter uma exposição à youtuber contendo uma piada gordofóbica e nada engraçada. Você encontra ela aqui.

Isso repercutiu na tal tag, o que gerou comoção e polêmica, tendo em vista que a tag atingiu os mundiais.

Bem, a questão a ser pautada aqui é: Ser visto como doente perante a sociedade NÃO é engraçado. E discurso de ódio não é opinião, e deve ser discutido para ser evitado.

Youtuber Alexandra Gurgel, alvo de piadas gordofóbicas do apresentador.

Desde muito tempo, mulheres (principalmente) estão submetidas a entrarem em um padrão corporal considerado bonito (para elas ?NÃO, para a sociedade), aonde o mercado disponibilizou uma série de produtos para emagrecimento, para estética, e para deixar você o mais próxima do padrão exigido.

Essa cobrança não tem como objetivo fazer você se sentir saudável, bonita, aceita. O objetivo é lucrar. Você realmente acha que as lojas de produtos de academia e os sites de dieta estão preocupados com a sua saúde ? Ninguém liga. Só querem você dentro do molde. Produzindo manequins e robôs, escravos da moda e do desagradável padrão.

Agora vou passar um pouco da minha experiência com o meu corpo.

Me chamo Maria, tenho 64 quilos, e 1 metro e 57 centímetros de altura. 
 Tem algo de errado comigo.

Diversos sites em que eu coloco o meu peso + altura, o resultado é: sobrepeso. Sobrepeso já é motivo pra surtar, ne?

Com 12 anos, eu já pesei 38 kg. 12 anos. É tão pouco pra tanta cobrança. Se a Maria de 5 anos atrás visse a Maria de hoje, ela ia chorar. Ia se descabelar e vomitar ainda mais pra nunca se tornar quem eu sou hoje.

Mas depois de muita gritaria, muita lágrima rolando, e consigo olhar no espelho e não sentir vontade de chorar e quebrar ele ao meio.

É claro, crises vem e vão e não é todo dia que eu me sinto maravilhosa. Mas eu já não ponho a minha vida em risco como colocava antes.

Eu, uma mulher que NÃO está nos padrões, que já ouviu comentários desagradáveis, que tem a autoestima baixíssima e teve em seu histórico de distúrbios psicológicos a bulimia, ver um comentário desagradável como este direcionado a uma mulher gorda não me permite permanecer calada.
 Meu corpo é de verdade. O corpo da Alexandra é de verdade.

Minhas celulites, estrias e curvas são reais. Eu não vim de nenhuma capa de revista ou comercial de lingerie. Eu vim da carne e do osso que a mim foi submetido. Que me compõe.
 Antes de publicar um tweet como esse, Danilo( lembrando que você é um artista que trabalha com o público e com a imagem) lembre-se do gatilho que é dado no exato momento que esse tipo de postagem é enviada pro mundo.

Milhares de meninas têm seus corpos oprimidos e julgados diariamente com conteúdos como esses. A anos, a pressão não muda. As doenças psicológicas resultantes desse tipo de atitude só aumentam.

Vale também lembrar que o padrão é imposto em conjunto por uma sociedade patriarcal que te obrigada a vestir menos de 38 e ter sua cintura esmagada por corsets e cintas afim de eliminar qualquer gordura sequer.

É foda ver gordo tendo visibilidade, né? É inacreditável que essas mulheres, essas pessoas, consigam conquistar coisas, consigam realizar seus sonhos e alcançarem seus objetivos. LOGO essas pessoas tão ‘fracas’, tão ‘frágeis’ socialmente falando. Frágeis porra nenhuma. A batalha diária com o seu corpo é o que te torna forte. E te faz falar mais alto cada vez que um ser infeliz faz comentários desse nível. JAMAIS se cale perante esses acontecimentos.

Queria parabenizar a Alexandra pela resposta, e por todo esse tempo motivando jovens e mulheres a se amarem. A olharem pro espelho e finalmente entenderem que aquela carne e aquele osso são o que sobrou de muita luta em busca da felicidade pessoal. Essa carne de mulher, tão julgada, tão oprimida, tão desrespeitada… Tão real.

Tão sua. Somente sua, e de mais ninguém. E que ninguém te diga o que é certo pra você, ok?

Esse texto é pra mim, pra todas nós que sentimos que nossos corpos são feios, errados e devem melhorar. 
 Ele só precisa melhorar se você quiser que melhore. Ninguém pode te dizer o que fazer. 
 Por isso enfatizo, mulheres reais tem corpos reais. Tem celulites, tem estrias. 
 São as nossas marcas. A gente existe, e somos assim.
 E é isso aí. Força a todas nós. Seguimos lutando.

Forte abraço, Maria.

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