estar em trânsito

publicado em 30 junho, 2014


Não é de agora que eu ando de saco cheio de estar constantemente em trânsito. Acho que se juntar tempo de viagem, arrumar e desarrumar mala, esse ano passei um quarto do meu tempo fora de casa. Entre todos os incômodos relacionados, esse final de semana conseguiu se superar. Há alguns meses reservei minha passagem para a Galicia, visitar a família, passear um pouco, e aproveitar a coincidência da namorada estar por aqui em turnê com a orquestra. A maldição é que eu – mais uma vez amador na questão futebol – não olhei bem as datas e meu vôo coincidia com o segundo tempo do jogo do Brasil esse sábado contra o Chile. Tenso. Preparei o que pude, cheguei no aeroporto cedo, passei por todo o processo de check-in, achei um bar com TV na frente do portão de embarque, e esperei meu nome ser chamado pra assistir o que podia na esperança de um placar tranquilizador. Como vocês viram, não foi o caso. com 7 minutos do segundo tempo tive que entrar e qualquer contato com o mundo exterior acabou ali. Duas horas. Inteiras. Sem saber de nada. Naquele miserável jogo. E aí a vida passou diante dos meus olhos. Não, brincadeira, só terminei de roer as unhas e considerei longamente todos os cenários possíveis. O fato era que seria algo tão incrivelmente impossível de acontecer – não a derrota, mas o fato de eu estar perdendo uma eliminação da copa nessas circunstâncias, tão longe, sem ninguém conhecido por perto – que eu não conseguia considerar essa opção. Era tipo quando a gente pensa demais no sentido da vida ou na idiotice humana, e a mente bloqueia um pouco por que não termos elementos para continuar, sabe? Enfim, não podia ser. E claro, não foi. Encontrei meu primo no desembarque e ele me contou o resultado esperado, o que não impediu o alívio. Imenso. Mas enquanto festejava pelas ruas de Santiago (a de Compostela, mas seria interessante se fosse a outra), não parava de pensar sobre o significado de ter perdido esse momento. Sofri um pouco, mas só consigo imaginar o quanto vocês sofreram daí. Aquele de cada bola fora, de cada risco de gol, enfim, o do futebol. E eu perdi isso. Beirava o sentimento de traição nacional, acreditam? Juro, me senti mal. Claro, não há o que fazer e não o pensava nesses termos. Mas é curioso divagar sobre aquilo que nos faz parte de algo, e a experiência comum, boa e ruim, é a base desse processo, não? Me lembro que uma vez tive uma conversa séria com minha família por que desde que fui morar fora do país eles me escondiam algumas coisas que aconteciam por que eu não ia poder fazer nada mesmo. Do tipo me contar de uma cirurgia simples só depois de terminada. E nesse misto de proteção e exclusão eu ia me sentindo menos parte do que se passava ali. Acho que eles entenderam meu ponto. Ou então resolveram não contar nem depois. É possível. Enfim, o fato é que eu me sentia menos brasileiro naquela hora, e não tem nada a ver com a distância ou isolamento do grupo (não conheço nenhum brasileiro na cidade que moro agora), mas simplesmente por que não pude sofrer junto.

Logicamente, do outro lado da copa estou torcendo pela Holanda, e não é que eu perdi o muito sofrido jogo de ontem? Estando com a família aqui, perdi um pouco do meu poder de agência e isolamento voluntário, e acabamos na estrada (de novo) durante toda a partida. Ia acompanhando pelo rádio (que experiência miserável pra quem baseia toda sua experiência sensitiva na visão) e já não tinha pressa para chegar em casa, já que quase não ia dar tempo de ver o último minuto. Até que a Holanda empata nos 43' do segundo tempo, e eu poderia assistir meia hora mais de jogo e sofrer com meus amigos holandeses! Foi o tempo de estacionar no bar e o narrador grita pênalti, eu corro pra dentro, vejo a Holanda marcar e o jogo acaba, classificada na garra, sofrida, e eu perdi tudo de novo.

Minhas desculpas sinceras a todos, e prometo não perder nada do próximo drama. Mas essa vai ser fácil pros dois. Eu acho.

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