sobre bicicletas que dobram

publicado em 17 agosto, 2014


Quando passei a visitar regularmente a Holanda meu pai me perguntou o que eu achava das tais bicicletas. Acontece que ele esteve em Amsterdam anos atrás, e não guardou uma imagem assim muito boa da cidade. A piada que ele gosta de repetir de vez em quando é: “e chamam isso de país desenvolvido, aquele bando de bicicleta velha e feia pra todo lado”. Não preciso dizer que eu e meu pai somos diferentes em várias coisas, e neste caso, sua forma de pensar é um produto direto de nosso meio e sua história pessoal de superação e auto-realização (de mérito, diriam outros), que tenho dificuldade de me identificar. Para meu pai, que nasceu no sertão central do Ceará e trabalhou de atendente de lanchonete na rodoviária de Brasília, é incompreensível a ideia de um país rico em que as pessoas não disponham de artefatos de qualidade para exercerem a cotidiana atividade de transportar-se. Acredito que, após se resignar em não ver “carros importados” para todo lado, ele se contentaria em ver bicicletas novas e bonitas, todas bem organizadas em estacionamentos, por exemplo. Pra quem já esteve em Amsterdam, sabe que o caos do trânsito de duas rodas está longe disso. Pra quem já passou mais tempo aqui, alguns conhecimentos específicos relacionados à bicicleta são essenciais, não apenas de trânsito – que são bem complicadas –, mas a relação entre qualidade do cadeado e da bicicleta, onde e como estacionar, deslocamento em grupo, etc. Além disso tudo, eu como sociólogo, me interesso pelo papel cultural da bicicleta, especificamente na tal distinção social, onde acredito residir a maior parte da resistência do meu pai com a cidade. Volto já nesse ponto.

Quando cheguei por aqui, a primeira coisa a fazer, naturalmente, era comprar uma bicicleta. Meus deslocamentos constantes entre as cidades e para a França me levaram à escolha óbvia de uma bicicleta que dobra. Trata-se de uma bicicleta que possui duas dobradiças que facilitam de forma absurda seu transporte. Além do mais, ela é considerada uma bagagem normal, e não exige taxas-extra no trem. Algumas são bem pequenas, com rodinhas que parecem brinquedo de criança. Eu, que não sou tão pequeno assim (apesar de que estar no país com a maior média de altura do mundo te obriga a reconsiderar essas coisas), escolhi uma das maiores disponíveis, e feliz da vida comecei a pedalar e a jogar minha bike nos trens. O que eu não sabia era que essas bicicletas podem ser motivos de piada por aqui, daquelas meio sem-graça que não faz sentido, mas que ainda assim fazem a gente rir, sabe? Pois é, tarde demais. As bicicletas dobráveis (não importa seu tamanho real), são engraçadinhas, as rodas pequenas, a marcha leve que te faz pedalar bem rápido pra manter a mesma velocidade das outras, o guidon comprido e o quadro baixo, uma estrutura “esquisita”. Esse esquisita entra em aspas bem grandes, por que ficou claro que o esquisito dessas bicicletas era algo inacessível pra mim: eu simplesmente não conseguia entender (e ainda não consigo) por que elas eram esquisitas e outras não. Eu via a diferença, mas estava completamente alienado do valor a ela atribuído. Como nós que rimos de gente com meia preta e tênis esportivo (eu rio e muito), ou como os europeus riem dos brasileiros que combinam esses mesmos tênis de corrida com todo tipo de roupa. Cultura é cultura, né?

Me permitindo falar de um povo como um todo, o que beira a estupidez normalmente, os holandeses têm certa repulsa à ostentação. Conheço pouco de sua história ainda, mas sobriedade é um traço cultural forte, e se a hierarquia social obviamente existe, ela se manifesta de forma muito menos acentuada nos bens materiais. Por exemplo, não faz sentido para nós brasileiros que a riqueza se note nas coisas ordinárias como roupas, calçados, acessórios e… carros? Para mim, faria muito sentido que riqueza se percebesse nas bicicletas daqui, afinal, existem bicicletas e BICICLETAS. Acontece que os holandeses, principalmente das grandes cidades, adoram aquelas velhas, algumas caindo aos pedaços, ou pelo menos, as simples, comuns, que não chamam atenção. Verdade que pessoas mais velhas gostam de umas mais confortáveis, com marchas e tal, e entre jovens adultos também vemos umas mais estilosas, mas essas são, sem sombra de dúvidas, exceções. E não por serem inacessíveis. Absolutamente todas as pessoas que conheci com bicicletas que se destacam de alguma forma se apressaram em dar “desculpas”. “Meu pai comprou outra pra ele, daí me pediu pra ficar com essa”, “eu nem gosto muito, mas um amigo me ofereceu por um excelente preço, eu sei que não foi roubada, daí acabei pegando”, “achei toda quebrada na rua e arrumei sozinho, não gastei quase nada”, e por aí vai. Mas a imensa maioria das pessoas que conheço, inclusive os playboys com quem moro, pedalam sobre umas coisas que se fossem deixadas soltas pelo Brasil iam parar no ferro-velho. Ou pelo menos não despertaria muito interesse.

De longe querer fazer disso uma super análise do sistema de estratificação social holandesa, mas não é curioso que um objeto tão ordinário como esse não seja usado para a diferenciação de classes? Existem diversos fatores que explicam as decisões pessoais na hora de se comprar uma bicicleta, mas existe uma tendência, e ela não é comprar aquela mais bonita, moderna, rápida, cool, que meu dinheiro pode comprar. Em geral, a questão decisiva é: dá pra pedalar nela?

Quando falava do meu pai e de distinção social, acho que vocês entenderam que eu falava de algo que é essencial da vida do brasileiro, as tais fronteiras simbólicas de classe. Ter acesso a certos bens, e mostrá-los, me distingue dos que não têm (que são a maioria). Fazer parte desse grupo exclusivo é o desejo de qualquer um que ainda não seja, não somente pelo acesso aos bens em si, mas pelo reconhecimento social que o acompanha. Quando projetamos isso para um desses países “ricos”, pode-se imaginar que todo mundo (ou quase) faça parte desse grupo, como se o país inteiro fosse composto pelos círculos sociais que os ricos freqüentam no Brasil, sem a poluição visual dos pobres entre eles. Acontece que por aqui, pelo menos na saída da estação central de Amsterdam, a sensação vai ser um pouco diferente, e a tentativa de separar com os olhos os ricos dos pobres vai ser meio frustada.

Ainda na tentativa de ser um bom sociólogo, não estou tentando despir as magrelas de qualquer carga social. Não, não. A sociedade é mais poderosa que isso. Aprendi, inclusive, que por mais que resista, não sou imune a ela. Me vi justificando minha escolha da bicicleta que dobra. Não é que tenho vergonha dela, afinal, pedala bem que só, mas é como se eu sentisse as pessoas olhando pra mim quando eu passava. Além do mais, a minha bicicleta não é nem velha, parece novinha. Até parei de limpar ela.

Ela está à venda agora. Não é que eu não goste dela, ao contrário. Mas parei de levá-la de um lado pro outro. Não faz mais sentido. Melhor uma bicicleta mais confortável então.

Estou de olho em outra já. Mas a que eu mais gosto é uma marca nova que não encontro de segunda mão. Ela é linda, super estilosa. Mas custa muito caro. Por outro lado, não tenho carro aqui, nem com ônibus gasto. É meu meio de transporte, poderia me dar esse presentinho, concordam? Acho que se eu comprar, vou ter que inventar alguma coisa pra justificar… tipo que achei bem barata, não pude recusar. Um presente talvez?

Email me when F. Eiró publishes or recommends stories