o que ir morar do outro lado do mundo fez com a minha soneca pós-almoço

você é o que você dorme. ou não dorme.

cuidado preu não babar sua tela

cê já ouviu essa história umas cem vezes, chutando baixo.

o jovem tava estressadão na selva de préda, ele mete-lhe o lôco, arruma as malas e vai pro outro lado da terra. cê conhece alguém assim. ou conhece um amigoquetemumamigoquefoienuncamaisvoltou.

eu tinha acabado de me mudar do rio pra são paulo, tava trampando como redator numa startup muito doida e com muito din no bolso. a startup. eu tava no esquema “estudante paga meia?”.

talvez eu tenha me enganado, cê ouviu essa história menos de cem vezes: é que eu gostava muito do meu trabalho e do meu dia a dia.

eu amava a galera. o escritório era um clima ótimo pra trabalhar. eu tava animado de ter mudado de estado, saído de casa, estar conhecendo a cidade foda que são paulo é. tava me sentindo cada vez melhor como redator e publicitário.

o problema é que eu vivia estressadão. e nem que eu curtisse muito o job isso era evitável. cês sabem como é.

dormia nada, comia lixo, bebia o capiroto, usava umar droga vez em quando, essas coisa que a gente faz quando não quer se encarar de frente. mas vou te falar, nada disso era exatamente bad.

tinha uma parada específica que era foda.

eu não conseguia tirar a famigerada soneca da tarde.

aquela aos domingos. aquela que eu passei a vida inteira tirando. aqueeela.

não rolava mais.

eu sonhava com o trabalho. com a minha chefe, com ideia nova pras coisas, com o que tinha sido dito, ia ser dito, nem sei. a cabeça tava sempre funfando.

joguei tudo pro alto e vim viver o sonho australiano. treinar o inglês, ter mais tempo pra escrever, conhecer o planeta e, finalmente, ter um job qualquer que me deixasse tirar aquele ronco pós-almoço no fds.

acabei indo trampar numa delicatessen em sydney, vendendo queijos, frios (prosciutto de 500 táokeis multiplicados por 3/kg), azeite de abacate, roda gigante de parmesão e os carai.

sabe o que acontece agora aos domingos? depois que eu almoço aquele moquecão de camarão com azeite de dendê que só eu sei fazer? (caô)

eu deito pra tirar la siesta sagrada, hermanos y hermanas.

e eu sonho com a minha chefe grega. com o cortador de carne lá da delicatessen. com os cem tipos de queijo. com o que foi dito, vai ser dito, nem sei. com os clientes aussie me pedindo umas paradas que eu não entendo. (“i beg your pardon?”)

o lado do mundo mudou, mas isso não significa nada se a cabeça olha na mesma direção. e vou te falar: essas porra têm tendência a te dar torcicolo.

não, sérin.

eu fui percebendo que já fazia muito tempo na minha vida que eu não tinha um bom sono, e que isso podia estar ligado a várias paradas. dor no pescoço, dor de cabeça, cansaço (dã), etc.

sim, eu precisei viajar uma penca de quilômetros pra perceber que o problema não eram a selva de préda, a minha chefe, as expectativas dos vinte e poucos e tudo o que cê sabe que cabe aqui.

o problema era eu.

terapia cara, né? rsrs e olha que não comprei a passagem com milha.

mas essa é a coisa linda que sair do país e viver um cotidiano completamente diferente fazem contigo: você obrigatoriamente olha pra dentro.

cê vai ter que olhar pra dentro.

porque se não dá pra culpar tudo o que te cercava antes, então, a culpa só pode ser sua. é a mesma cuca presa em cima do pescoço, só o que mudou foi o nome da estação do metrô.

aí, chapa, só você pode resolver.

se você leu até aqui e se identificou, eu te peço desculpas: não tenho solução mágica. mesmo porque isso deve variar pra cada um.

mas tenho sim um último punhado de palavras que talvez seja interessante pra você: tá pensando em ligar o foda-se, largar tudo, meter a cara em outra parada, porque você tá sentindo que talvez seu cotidiano não teja te fazendo bem? para de pensar. e vai.

porque vai transformar sua vida, não tenha dúvidas.

nem que seja só pra você perceber que você não se transformou em absolutamente ninguém novo.

e isso pode ser a melhor resposta pra seguir buscando crescer.