Elis Regina: O sentimento entre as notas

Para realmente apreciar Elis Regina se faz necessário começar pelas entrelinhas. É a moeda de ouro do mundo da música - o menor intervalo entre as notas do piano. A arte de Elis acontece dentro das meias-etapas, nos pequenos tempos que compõem uma melodia.

Quando Elis canta, o tempo da música parece se expandir. Em parte, isso é um reflexo de sua técnica exigente e levada aos extremos: Quando ela queria, podia controlar os intervalos mais difíceis. Ao mesmo tempo, tinha um controle monstruoso de ampliar os tons às vezes ocultos de significado em uma letra. No espaço entre C (dó) e C, Elis possuía o domínio de conjurar um oceano de problemas e amor. Os sentimentos entre as notas.

Um furacão Sutil

Elis Regina cresceu em Porto Alegre, no sul do Brasil. Começou a cantar profissionalmente ainda adolescente, e chegou à fama depois de sua aparição no Festival da Musica de 1965. Mal-humorada, era muito exigente no estúdio, fato esse que levou alguns músicos a chamá-la carinhosamente de “Pimentinha”. Sua forma intensa de se apresentar ao vivo, lhe rendeu os divertidos, porém medíocres apelidos, “Hélice Regina” e “Eliscóptero”. O que mais tarde se tornaria um “furacão”, começava a dar seus sinais particulares de que bons ventos a levariam para uma carreira apoteótica.

Musicalidade

Como tantos brasileiros, ela aprendeu seu ofício ao interpretar as intrincadas canções de Antonio Carlos Jobim. Uma de suas metas de carreira, que aliás foi realizada no início dos anos 70, era fazer um duo com o maestro. O consumado Elis e Tom se encontra nos meandros da carreira de Elis, sendo lançado entre os álbuns “Elis” de 1971, produzido por Nelson Motta, e o espetacular “Falso Brilhante” de 1976. Esse ultimo, oriundo do espetáculo de mesmo nome, ficou em cartaz por dois anos no Teatro Bandeirantes em São Paulo, tornando-se sucesso absoluto e lendário na história da MPB. Sinceramente, Falso Brilhante merecia um texto particular, pois a grandiosidade desta obra se encontra nas nuances, com canções absolutamente críticas em relação à ditadura militar. Como eu disse, entrelinhas.

Misturando jazz, rock e uma maneira de ser

Impregnada por um estilo jazzístico, reinventou clássicos do samba e da bossa nova, deixando sua assinatura em cada música que interpretou. Esteve cercada dos melhores compositores da época, tempo em que as canções eram escritas especialmente para a voz de Elis cantar. Vanguardista que sempre foi, sabia a hora certa de se reformular como artista. Diante dos novos tempos, surgiam novos caminhos. Era tempo de se reinventar, como sempre o fez, em seus 20 anos de carreira. De certa forma, Elis Regina é semelhante à figuras icônicas, como Janis Joplin ou Billie Holiday — cantoras cujas gravações não define apenas um estilo, mas um modo de ser.

Tragada pela própria labareda

Intensa, em todos os aspectos de sua vida, Elis não se acomodava. Parecia que tinha bicho carpinteiro — como ela mesmo disse em uma entrevista. Vivia cinco anos em um. Quando queria alguma coisa, ninguém a segurava. Seu tempo corria de forma diferente. Era uma chama, alimentada pela competitividade profissional e múltiplos amores. Tamanha intensidade a levou à loucura, sem hora marcada. Tragada pela própria labareda, Elis Regina morreu aos 36 anos, devido a complicações decorrentes de uma overdose de cocaína e bebida alcoólica. Ironicamente, ainda está viva.

Redescobrir

É tempo de Elis, sempre foi. Ouso dizer que está mais viva do que nunca, pois seu legado sobrevive ao tempo, e como todo legado, será eterno. São muitos os registros espalhados pela internet, além de biografias como “Furacão Elis”,(2012), “Nada será como antes”, (2015) e “Elis, uma biografia musical”, (2015). Nos cinemas, a cinebiografia “Elis”, dirigido por Hugo Prata e estrelado pela brilhante Andréia Horta, estreou no ultimo dia 24 de novembro, (2016).

Entre os tempos é possível redescobrir Elis, nos meio tempos das melodias, nos meio tons, no espaço entre as notas, pois há uma gama de sentimentos intrincados nessas entrelinhas. Faz-se necessário sentir, para que seja possível absorver toda a musicalidade dessa artista única, grande, definitiva, imortal, Elis.

Elaine Timm

Discografia completa: http://www.elisregina.com.br/Por-Elis/Albuns

Trailer do longa “Elis”: https://www.youtube.com/watch?v=GbgVYW8pZmg

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