Minhas aventuras como uma criança mentirosa

Quando criança, eu mentia. Muito. Mentia demais.

Eu não sei porque mentia. Talvez gostasse de inventar histórias. Talvez gostasse de me sentir especial de alguma forma. Não sei.

Uma das primeiras mentiras que contei na escola foi que eu sabia como era a babá dos Muppet Babies. Se alguém já viu o desenho, sabe que só aparecem as pernas da babá, seu rosto nunca era revelado.

Bom, tinha sido revelado pra mim. Eu sabia como era. A criançada queria saber como eu podia ter descoberto. Muito simples: meu pai havia importado uma televisão japonesa (na minha infância nos anos 1980, eletrônico importado do Japão era o que havia de melhor) que era tão grande, mas tão grande, que exibia detalhes do desenho que não apareciam nos televisores normais dos meus colegas. Sim, eles acreditaram em mim.

Quando fiz sete ou oito anos, ganhei um diário como presente de aniversário. Nos primeiros dias ficava empolgadíssima para escrever nele. Depois de um tempo, percebi um padrão nos meus relatos: eram todos chatos. Iguais. “Querido diário: hoje eu fui pra escola, cheguei em casa e brinquei. Fim”. Daí eu comecei a inventar umas histórias de coisas que aconteciam na escola — coisas que não aconteciam, na verdade. Inventei, inclusive, um relato super elaborado sobre a história de vida de um menino pelo qual eu tinha uma quedinha (aliás, que loucura é essa de meninas de oito anos tendo quedinhas por coleguinhas de classe).

Quando eu tinha nove anos, entrou uma colega nova na turma e logo nos demos bem. Só que a menina gostava de contar vantagem, parecia ter tudo nesse mundo, todos os brinquedos que eu sonhava ter, ela tinha. Como já diz a frase de caminhão, “inveja é uma merda”, então adivinha o que eu comecei a fazer? Isso mesmo. Comecei a mentir pra caralho.

A menina dizia que tinha uma boneca importada? Opa, pois eu tinha também! E que chorava e fazia isso e assado. Ah, a sua não faz isso? Que pena… Logo logo eu comecei a inventar que tinha os brinquedos mais loucos e estapafúrdios — e até criativos: pra falar a verdade, naquela época eu devia era ter sido contratada pelo setor de P&D da Estrela, isso sim.

Em tempos pré-internet, inventar essas mentiras era a coisa mais fácil do mundo, já que não tinha Google pra caguetar a gente. E pra desestimular a colega a procurar esses brinquedos fantásticos nas lojas brasileiras, era só dizer que eram “importados”, pois nos anos 80 só comprava coisa importada quem tinha pacto com o capeta, de tão difícil que a coisa era.

Também disse a ela que morava num prédio em que havia uma piscina em cada apartamento — e não estava, obviamente, falando de uma piscina Toni. Era piscina de azulejo mesmo. [Não tinha nem piscina comunitária no prédio em que eu morava, imagina por apartamento]

Pois bem. Lá pro final daquele ano, depois que eu já havia mentido absurdamente para a menina e todos os colegas de classe, minha mãe disse que gostaria de fazer na nossa casa uma baita festa para o meu aniversário de 10 anos, que seria no ano seguinte, e convidar todo mundo da escola. Gelei. Como eu ia trazer meus colegas para o meu apartamento, que não tinha piscina, e mostrá-los os brinquedos importados que eu não tinha?

Fiquei recusando a festa, desesperada. Disse que não queria. Não, vamos fazer a festa como a gente sempre faz, com os primos, sem gente da escola, pra que isso agora, mãe?! Sério, eu já estava quase chorando. Minha mãe, diante da única criança no mundo a recusar uma festona de aniversário, obviamente, sentiu o cheiro da fumaça. “Que que tá acontecendo?”. Daí eu tive que abrir o jogo todo pra ela.

Primeiro, minha mãe passou uma bronca. Não foi isso o que eu te ensinei. Mentira é feio. Mentira tem perna curta. Depois ela se sentiu meio mal, pensando que minha vidinha de criança de nove anos era tão ruim que eu precisava mentir pras pessoas. Olha a dimensão da merda.

Eu sei que, depois de contar pra minha mãe sobre minhas aventuras como mentirosa, parei de mentir. Continuei conversando e brincando com a menina, claro, mas toda vez que ela se vangloriava de algum brinquedo que ela tinha, ficava na minha. Não dizia mais nada. E esse foi o fim da minha carreira de mitômana mirim.

Ah, e a festa de aniversário? Acabou que, entre um ano e outro, mudamos de cidade e minha festa de 10 anos só teve praticamente colegas da nova escola. Aos quais eu nunca menti. Juro. Não tô mentindo.

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