Será que é amor José?

Achei no pinterest.

E ela ajeita o cabelo, confere a maquiagem no espelho do corredor e me recebe com seu jeito meigo, no sorriso malicia, no olhar encanto, vem de canto e me pede um beijo.

O relógio anunciava que já se passava da meia noite, enquanto Martinho encerrava sua disritmia e Caetano com sua linda melodia preludiava o samba e amor em plena madrugada. Era uma noite um tanto fria, baseado nos padrões baianos/soteropolitanos.

Tínhamos nos mudado a menos de um mês, o famoso êxodo, convergimos em direção a capital em busca mobilidade e certa qualidade de vida.

Nunca havia reparado, talvez por descuido mais ela fica linda sorrindo ao Som de Katinguelê cantando recado à minha amada, enquanto me abraça após um dia cansativo para os dois.

Fui questionado por um leitor há pouco tempo como é que se sabia que amava outra pessoa? Creio que ele queria que eu fornecesse uma medida, um parâmetro, algo para ajudar sua situação, só que em minha mente como um mantra ressoava o verso de Engenheiros do Hawaii: “a medida de amar, é amar sem medida” e agora José?

Questionei-me durante alguns dias como responder tal questão e nesse meio tempo observei com mais atenção a minha doce consorte, minha amada, fiel companheira, a mesma que falei no inicio do texto.

Relembrei do nosso primeiro encontro, segundo e tudo que passamos até aqui.

Engraçado, em tempos líquidos não esperamos que a flor do amor venha brotar (um dos caras mais românticos que conheço sempre me dizia que o amor é uma flor roxa, que nasce no coração dos trouxas), sempre ficamos com um pé atrás. Por sentir e observar as fragilidades das relações humanas, cada vez mais smarthzadas, rápidas e flácidas. Nocauteadas em uma velocidade enorme pela força voraz do tempo, pelo desgaste, pela rotina, pela grama do vizinho ou por pura falta de empatia. A maioria das pessoas no nosso mundo pós-moderno entram em um relacionamento já esperando o seu fim, tratam todo relacionamento como de bolso, passageiro, tapa buraco e etc, algumas se orgulham de manter o tal “rolo extra” (mesmo que eu continue acreditando que isso só se aplica ao rolo de papel higiênico). Mas não pode ser assim, não podemos manter um “amor em cada porto”, pois assim nunca vamos saber qual é o nosso porto seguro.

Repare bem:

Advenho de família classe media, fruto de um tremendo êxodo rural que veio se alocar na região metropolitana de Salvador, não sei vocês, mas sempre acreditei que os mais velhos tem muito para ensinar a geração que o sucede.

Tomo meus avós como um exemplo, que após mais de cinquenta anos de casado sente orgulho em me contar que começou a se relacionar através de cartas que eram entregues a minha avó através de uma amiga/prima/não sei ao certo o que do meu avô, vou frisar para você compreender: cartas! Não falei SMS era carta mesmo, papel, caneta e coração. Demora de escrever, demora de entregar, demora de ler, demora de responder (pior que textão no Facebook ou esse texto que quase ninguém hoje em dia tem paciência para ler).

Lembrando que o romance se iniciou quando meu avô que trabalhava com terraplanagem, avistou a longe minha avó entrando em uma rural e foi logo procurar saber quem era ela.

Vale ressaltar que minha avó não quis de primeira não, houve muita paciência e pertinência do meu avô (se não eu nem estaria aqui).

Veja só como o amor se manifesta.

Hoje em dia vejo que existe uma tremenda falta paciência em cortejar e ser cortejado, conquistar e ser conquistado, é tudo para agora e acabou (imagina esse povo enviando carta escrita a próprio punho sem saber que a pessoa recebeu ou não?).

Você caro leitor deve esta agora se questionando: Esse maluco, pomposamente autointitulado de escritor iniciou o texto falando de um fato, depois entrou em outro e agora ta tagarelando sobre o que mesmo?

Calma, leitor precoce. Não antecipe o fim.

Fiz esse pequeno trajeto para tentar exprimir como é difícil responder a pergunta sobre como saber que se esta amando, ainda mais em tempos modernos.

Em tempos de tinder e similares, um encontro, cama e adeus (não matem o mensageiro, eu sei que tem exceções), de relações fúteis, de status ou amostra, é complicado saber o que é e o que não é amor.

Após muita reflexão e dicas do meu subconsciente cheguei à conclusão que em minha opinião, a fórmula para saber que esta amando uma pessoa é simples e ao mesmo tempo complicada. Uma baita dicotomia.

Ao reparar minha consorte, durante alguns dias tentei relembrar o quando soube que era de fato amor.

Histórias de amor, costumam em sua grande maioria serem escritas de forma imperceptíveis, nos pequenos detalhes.

Lembrei que dias antes do tão ensaiado eu te amo, ao acordar já buscava o celular debaixo dos travesseiros para conferir se havia alguma mensagem dela, quando estávamos juntos sempre que queria dizer o que sentia me faltava à palavra, por não saber como dizer a complexidade e emaranhado de coisas que eu sentia, e a saudade era contando os dias para se ver e todo tempo junto era pouco (praticamente para melhor compreensão do nobre leitor imagine como a saudade mencionada pelo Wesley (não Joesley) Safadão na música Ar condicionado no 15).

Agora você deve estar se perguntando por que comecei falando sobre meia noite, Martinho, Caetano, Katinguelê e já estou em Safadão, afinal aonde eu vou chegar?

Então, o diabo esta nos detalhes e o amor também. No fim, é tudo uma questão de reparar e se permitir. É reconhecer o amor e se jogar.

É ser e não ter. Para saber que se ama alguém, primeiro você tem que se amar já dizia 5 a seco na canção ventos de Netuno “Pra poder viver o amor tem primeiro que se amar se for de verdade, há de prosperar…”

Ana Paula Vizzotto

Então, trocando em miúdos a minha resposta depois de toda essa divagação e bebedeira em lembranças foi que, para se ter certeza é só reparar nos detalhes até demais, sentir uma saudade meio que absurda, não perceber o tempo passar quando está com a pessoa, pensar nela logo quando acordar(mesmo que isso possa parecer clichê), ter paciência para com ela e ela com você, persistência, e por fim quando faltar palavras para definir tudo que você sente em sua magnitude e beleza, é amor.

Isso tudo é só para dar 100% de certeza, por que se você ta na duvida se ama ou não, ao menos uns 90% de certeza você já tem.

Mas devo falar das outras flores, cuidado, muito cuidado nessa hora.

Por vezes amar não significa ser amado, e dizer eu te amo não é e nunca será um salvo conduto para receber um eu também te amo de volta, é preciso ter paciência e persistência, até o limite que te faça bem.

O amor as vezes vem torto, as vezes vem de cara e as vezes era só catuaba mesmo, mas ele uma hora ou outra vem.

Não se desespere, não adianta forçar o amor na pessoa amada, pois o trânsito desta deixa o amante (no caso você) em uma situação dilacerada, a famosa fossa ouvindo Marília Mendonça e outras(os) do gênero musical. Como bem diz Ferrugem em parceria com a rainha Alcione: Paciência.