Minha conturbada relação com o Facebook

“Nossa missão: tornar o mundo mais aberto e conectado.” Será?

Trabalhando com tecnologia e design de produtos digitais, eu sempre tive interesse em experimentar e testar produtos e serviços novos. Pra usar um jargão: sempre fui um early adopter. E isso me lembra quando eu conheci o Facebook pela primeira vez, numa época em que a gente ainda colocava capa no computador depois de usar.

Quando o saudoso Orkut ainda estava no auge, lá por 2005, eu recebi o convite de um amigo para entrar nessa nova rede social: Facebook. Sem conteúdos e sem amigos não havia nada para fazer por lá. Deixei minha conta inativa até 2007, ano em que começou a ganhar tração no Brasil.

Estamos em 2016 e muita coisa aconteceu nesses 11 anos (lembra do Google Wave?). O Facebook se tornou esse gigante com cerca de 1.65 bilhões de usuários no mundo todo e uma receita de $5.38 bilhões de dólares (#). E os planos do menino Zuckerberg não param por aí.

Recentemente ele divulgou algumas ideias do que o Facebook tem planejado para os próximos 10 anos, que inclui investimentos em infraestrutura, drones, satélites, linguagens de programação e realidade virtual. Ou seja, o Facebook quer se tornar mais ubíquo do que já é.

A minha relação com o Facebook sempre foi de altos e baixos. Minhas saídas e recaídas lembram um pouco a história do Menino que gritava “Lobo!”. Tanto que na última vez que eu excluí minha conta, alguns amigos falaram algo do tipo: “Ah, tudo bem, semana que vem eu sei que você volta!”.

O fato é que eu sempre senti um grande desconforto ao usar o Facebook. Talvez seja pela superexposição da vida, ou pela economia da atenção, ou pela bolha de conteúdo, ou pela manipulação do conteúdo, ou a capacidade de modular emoções, a falta de ambiente propício ao debate, ou pela zoeira pura e gratuita de tudo, ou pela falta de conteúdo relevante, ou pelo latrocínio da internet livre, ou a falta de transparência no uso de dados pessoais, ou a farsa e extorsão aos anunciantes, ou as mentiras sobre engajamento …

Acho que deu pra sacar o quanto eu fico desconfortável, né?

Tenho acompanhado o trabalho do jornalista iraniano-canadense Hossein Derakhshan que ficou 6 anos preso em Teerã (de 2008 a 2014) acusado de ciberativismo por fazer críticas ao governo do Irã.

Em seu mais recente texto publicado no Medium, ele fala sobre como o Facebook matou a internet livre e tem transformado nossa experiência online em algo pasteurizado, previsível e alienado. De todos os motivos que listei anteriormente, este talvez seja o que mais me preocupa.

Eu achei que ele foi tão direto ao ponto que traduzi o texto (você pode ler completo aqui) e selecionei alguns trechos:

Mark Zuckerberg matou os links (e a web) porque criou um espaço que é mais ou menos como o futuro da televisão ao invés da internet. Ao contrário do que ele prega, o Facebook nos dividiu em pequenas bolhas pessoais de conforto. Não precisamos fazer nada além de rolar nossos dedos […]
Todos os vídeos, imagens e artigos que vemos em nossos feeds de notícia são escolhidos baseado em nossos hábitos, baseado em likes e compartilhamentos anteriores, que foram ensinando ao Facebook sobre nossas preferências. Naturalmente, muitos de nós só damos like em coisas ou pessoas com as quais concordamos, e assim, o Facebook raramente nos perturba, desafia ou surpreende.
Enquanto Zuckerberg lamenta os muros e admira as pontes, o fato é que seus algoritmos do Facebook criaram bilhões dessas bolhas de conforto que estão isolando mais do que muros. Além disso, ele destruiu as mais poderosas pontes que talvez já existiram na história humana, os hiperlinks.
[…] A visão de Zuckerberg não é conectar pessoas em ilhas distantes, mas trazer todo mundo para uma ilha gigantesca, para que assim ninguém nunca mais precise usar uma ponte para ir a outro lugar.
O que Zuckerberg está fazendo, especialmente nos países em desenvolvimento, é fazer as pessoas pensarem que ‘Facebook’ significa ‘internet’ — e ele tem sido bem sucedido. Mais da metade dos indianos e brasileiros agora equiparam a internet com o Facebook.

(As pontes que Mark Zuckerberg destruiu, por Hossein Derakhshan)


Assim como em um bar barulhento, o atual ambiente das redes sociais nos bombardeia com conteúdos irrelevantes e só é possível ouvir quem gritar mais alto. Eu gostaria de começar uma conversa onde possamos nos ouvir e compartilhar ideias, sem barulho, sem gritaria, sem “likes”preguiçosos.

Ainda não sei ao certo, mas talvez o bom e velho email possa proporcionar esse ambiente em que a qualidade é mais apreciada que a quantidade.

Essa proposta faz parte de uma experiência. Será que é possível? Será que é sustentável? Ou será que o futuro da interação virtual será sempre filtrado por interesses escusos de grandes conglomerados de mídia?

fsociety (Mr. Robot)

Eu sei, às vezes esse discurso parece um pouco Blade Runner, Matrix, anárquico, ciberpunk demais; mas estamos vivendo nessa era em que privacidade (online e offline) e direitos individuais estão sendo discutidos por políticos. Se não abrirmos os olhos, já era…

Por isso, eu realmente acredito que deveríamos pensar mais sobre o que desejamos pro futuro. E isso começa por avaliarmos nossa relação com as redes em que estamos inseridos. Como interagimos? O que estamos construindo? Que tipo de direitos estamos cedendo? Quais são os benefícios que recebemos em troca? Existem alternativas?

O Facebook tem várias qualidades positivas e que podem ser exploradas de forma saudável e justa, com certeza. Eu ainda estou tentando juntar as peças e encontrar esse meio-termo. Você tem pensado sobre isso? O que você acha? Como é a sua relação com o Facebook?


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