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04/30 — Pensando colaboração e sala de aula.

Hoje vou falar de salas de aula!

Durante boa parte da minha vida profissional fui professora universitária. Adoro dar aula. Mas detesto salas de aula! Já já explico o porquê!

Vivemos hoje uma revolução colaborativa em vários setores. Colaborar, construir junto, co-criar, virou palavra fácil na boca de quem quer se mostrar surfando a onda da inovação. E claro, tenho visto isso acontecendo também dentro do discurso levado para as salas de aula. Eu mesma sou uma que adoro deixar bem claro para os meus alunos que ali dentro é espaço de construção coletiva, de que não sou dona da verdade, que o conhecimento existe dos “dois lados”, que é uma jornada de aprendizado conjunta.

Mas sempre fiquei muito frustrada com o resultado que costumava obter em relação ao engajamento dos meus alunos à essas ideias.

Já passei por situações de cobrança porque eu não “mandava”, eu conversava. Já tive reclamações de que estava querendo que os alunos fizessem o meu trabalho ao pedir que trouxessem ideias do que queriam aprender além da ementa durante o semestre para que pudéssemos terminar juntos o cronograma das aulas.

Isso tudo me deixou muito assustada (e confesso que até um pouco frustrada), pois não esperava encontrar esse tipo de comportamento em um ambiente criado para aprender, trocar informações, se desenvolver.

Primeiro achei que o problema era comigo. Mas tendo a oportunidade de trabalhar com disciplinas práticas e teóricas comecei a perceber que a questão poderia ser muito mais complexa do que estava imaginando.

E como boa interessada que sou na relação entre comportamento humano e ambiente construído comecei a pensar a estrutura física de uma sala de aula quando a mesma foi criada para servir a metodologia de ensino bem específica lá nos primórdios do surgimento das escolas.

Começamos com uma metodologia orientada para a obediência a um ser que sabia de tudo, que não podia ser questionado e que podia até punir fisicamente o aluno que saísse da linha ou errasse alguma lição: o professor!

O tipo de relação que se desejava estabelecer era de obediência, logo o ambiente deveria colocar a pessoa a quem se devia obediência em destaque e as pessoas que deveriam obedecer todas juntas, em posição de subordinado.

A configuração espacial ideal para que esse tipo de relação de dominação acontecesse seria então salas de aula com carteiras enfileiradas de um lado onde os alunos ficariam sentados e imóveis, e do outro o professor, que ficaria de pé com o poder de circular livremente por todo o espaço, e o quadro — ponto focal do aluno. Para reforçar ainda mais a superioridade do professor, ele foi colocado em cima de um tablado e sua mesa era maior e diferente da dos alunos, a cadeira, embora bem menos usada que a dos alunos, muitas vezes era melhor e mais confortável.

Acho que você já deve estar entendendo onde estou querendo chegar não é mesmo?

Mas continuemos!

Hoje em dia o discurso dentro de sala de aula vem se transformando. Temos já várias alternativas educacionais que propõe uma inteiração diferente entre professor e aluno. Algumas delas até acabam com a figura do professor, colocando em seu lugar a figura do mentor, facilitador, orientador, que é bem menos autoritária e muito mais colaborativa.

E com o mundo crescendo na direção onde o conhecimento não fica mais retido nas mãos de uns poucos mas sim ao alcance de quem souber digitar a sua dúvida na caixa de busca do google, é de se esperar que um modelo de sala de aula onde apenas uma pessoa é possuidora do conhecimento inquestionável esteja caindo em desuso principalmente pela falta de aceitação dos próprios alunos.

Podemos perceber o discurso mudando. A vontade dos professores de adaptar suas didáticas à essas novas formas de interação com os alunos é real.

Mas vamos olhar para as salas de aula que temos hoje! Na maioria das escolas básicas, de ensino médio e universidades ainda temos exatamente o mesmo modelo de sala de aula elaborado para uma situação de desigualdade e obediência quase que cega do aluno para com o professor. Logo, a tentativa de uma abordagem mais colaborativa e voltada para a criação coletiva fracassa vergonhosamente

O fato é que não adianta mudarmos o discurso dentro das salas de aula se não mudarmos junto os espaços físicos que dão suporte ao discurso em vigor. Tudo dentro das escolas (do infantil à universidade) ainda lembra os sistemas que subjugavam os alunos à vontade e sabedoria dos professores. Os nossos sistemas de notas, de recompensas por comportamentos “positivos”. Tudo isso mina qualquer possibilidade de se construir relações de colaboração.

E o professor pode tentar conversar, fazer aulas ao ar livre, levar para visitas de campo, ir fantasiado ou plantando bananeira que basta entrar dentro da sala de aula e sentar na configuração de sala de aula convencional para que pelo menos metade daquele trabalho de interação e colaboração vá por água abaixo. Se essas atividades forem feitas esporadicamente ao longo do semestre aí que fica mais difícil ainda.

O grande problema que temos é — óbvio — de dinheiro! Continua-se fazendo de tudo para minimizar gastos com alterações de infra estrutura. É mais fácil corrigir o discurso pois este não implica em gastos com reforma, pintura, construção de um novo prédio.

Mas com isso estamos desconsiderando a importância que fatores ambientais exercem em nosso comportamento. Quer gostemos ou não, somos afetados em nível subconsciente pelas características físicas dos espaços que utilizamos.

Se você disser que não, vou te pedir para começar a se observar quando você entra em uma igreja, ou na sala do seu chefe. Como você se comporta? Será que é da mesma maneira que quando está na sala da sua casa? E no quarto de um hotel, você se sente do mesmo jeito que no seu quarto?

O ambiente exerce sim influência no nosso comportamento e na forma como interagimos com o mundo e com as pessoas à nossa volta. Ele não age sozinho é claro, mas não pode ser desconsiderado da equação como tendemos a fazer. Uma edificação é construída com o propósito de atender às atividades e relações que acontecem em seu interior. Se essas atividades e relações mudam, as edificações devem mudar junto.

Se isso não acontece é como se a gente estivesse querendo que uma escada simples de madeira funcionasse que nem uma escada rolante. A escada de madeira foi uma grande invenção para alcançar lugares altos, permitiu construir mais de um andar nas edificações, mas exigia que fosse feito um esforço para ir de um ponto ao outro, ela não “subia sozinha”. Quando começou a se imaginar a possibilidade da escada fazer o nosso trabalho de subir foi necessário que se inventasse uma nova escada, agora munida fisicamente de toda a tecnologia necessária para que esse novo conceito de “subir escada” fosse efetivamente real. Hoje é inconcebível você parar em frente a uma escada simples de madeira e esperar que ela funcione como uma escada rolante. Se você fizer isso os outros vão te chamar de doido. É muito claro que se você quer subir uma escada sem fazer esforço, você vai precisar de uma escada rolante e não de uma escada simples de madeira.

Agora a pergunta que fica nessa história toda é porque que com a história da escada parece tão óbvio que para que ela funcione da nova maneira é necessário trocar a velha escada de madeira pela nova escada rolante, e com as nossas salas de aulas ainda ficamos querendo encaixar nas estruturas antigas todas as inovações metodológicas que dizemos orgulhosamente que estamos implantando nos nossos modelos pedagógicos? Não tem cabimento, não é mesmo?


Esse foi o quarto texto do desafio #30ideiasem30dias #eapalavraeh, para saber mais, clique aqui!

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Amanhã tem mais!