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08/30 — Brincando com a Criatividade

Toda manhã era a mesma história. Sentava na frente da folha em branco e esperava as ideias virem. Só levantava os olhos para olhar, no canto da sala, perto da janela, a gaiola vazia.

Toda manhã as horas passavam e o papel que continuava nervosamente branco o olhava de volta em tom provocativo, estampando em sua brancura, a Criatividade que havia fugido da gaiola levando junto a sua inspiração.

Há muito tempo havia aprendido, não se lembra como ou com quem, que Criatividade era algo que poucos tinham. Um pássaro raro que ou se herdava dos antepassados ou tinha-se a sorte de encontrar em um rompante de brilhantismo.

Não herdou de família, mas em um determinado momento da vida, ao andar em meio a um bosque com árvores frondosas e chão coberto de pequenas flores coloridas, deu de cara com uma linda Criatividade que passeava despreocupada, perdida em meio a seus pensamentos.

Se apressou em armar uma arapuca para prender a danada. Não precisou de muito esforço. Criatividade gosta de gente. Ela se aproximou sem medo ao ser chamada e nem notou quando foi fechada em uma gaiola e levada para casa, onde foi colocada ao lado da mesa de trabalho.

Nos primeiros dias de posse da Criatividade experimentou um rompante de ideias, lindas, absurdas, mirabolantes, simples, complexas, coloridas, preto e brancas, infinitas! Papéis e mais papéis eram preenchidos. A casa nem tinha espaço para tantas ideias.

Mas aos poucos a Criatividade foi ficando pálida, parou de cantar, de sorrir, de se mexer. Ela viu a gaiola. Fechou os olhos.

Com medo de ter matado a Criatividade se apressou em levar a gaiola para perto da janela para tomar um ar. Assistiu uma rápida melhora. Ela recobrava a cor, se agitava e observava a vida lá fora, alegre. Voltou a cantar! Os papéis voltaram a se encher de cores e letras.

Mas aos poucos a Criatividade voltou a ficar quieta… a perder cor… e o papel voltou a ficar branco.

Não sabia o que fazer! Tentou cantar para ela, levar para fora de casa… mas nada parecia adiantar. A Criatividade ficava cada vez mais pálida. Começou a ficar translúcida e numa manhã, desapareceu!

Num rompante de desespero, abriu a porta da gaiola. Sentiu algo se movendo rápido na direção da janela e pode ver ao longe a Criatividade tomando forma novamente, voando livre e feliz mundo afora.

Observado sua esperança de brilhantismo indo embora feliz, solta pelo mundo, voltou para a mesa e começou a olhar a folha de papel que nunca mais voltou a se colorir com ideias.

Toda manhã era a mesma história. Sentava na frente da folha em branco e esperava as ideias virem. Só levantava os olhos para olhar, no canto da sala, perto da janela, a gaiola vazia.

Até que um dia se cansou. Levantou, foi até a janela, olhou para a gaiola vazia com a porta aberta. Olhou para a janela e se lembrou da última visão da Criatividade linda, colorida, cheia de vida bailando livre pelo mundo.

Se cansou daquela sala, se cansou daquela casa, se cansou de olhar a gaiola vazia. Pegou um fardo de papel, alguns lápis, uma bolsa e saiu pela porta para seguir a direção que a Criatividade havia tomado.

Não tinha esperanças de reencontrá-la, queria apenas sair de onde estava. Seguiu andando sem rumo certo.

Na primeira curva encontrou três abelhas rodeando um lindo arbusto florido. Elas bailavam graciosamente ao sabor do vento e suas pernas marrons iam aos poucos se cobrindo do pó amarelo das flores. Teve vontade de registrar esse momento. Tirou o papel da bolsa e rapidamente desenhou a cena.

Seguiu caminho e encontrou um vilarejo. O lugar era cheio de vida, cores, sons, pessoas com as mais diferentes características. Sentou na fonte da praça e começou a desenhar freneticamente tudo que via.

As pessoas que passavam começaram a parar para conversar sobre o que estava fazendo. Começaram a contar suas histórias. Surgiram então registros das conversa. Eram desenhos, textos, impressões, apertos de mãos, abraços, laços, emoções. E precisava de mais papel.

Seguiu seu caminho até encontrar o mar. Sentou na areia da praia e observou o ir e vir das ondas. Um poema surgiu das espumas e voou para seus braços como uma gaivota. Depois um conto surgiu de dentro de uma concha e veio se aninhar nos seus braços.

De repente sentiu algo encostando nos seus pés. Era a Criatividade de volta! Estava mais linda do que nunca! Parecia ter crescido, renovado a plumagem. Ela dava saltos de alegria com o reencontro.

Seu coração também estava feliz em vê-la de novo! Mas dessa vez não correu para colocá-la numa gaiola. Pelo contrário, deixou que ficasse ali, brincando livre ao seu redor.

Depois de ter assistido um lindo pôr do sol em companhia da sua Criatividade querida e de poemas, contos, desenhos dos mais diversos, sentiu que era hora de seguir caminho.

Despediu mentalmente daquele lindo cenário e se pôs a caminhar. Qual não foi a surpresa de ver que a Criatividade seguia lado a lado nessa caminhada. Havia ganho uma parceira de jornada!

Foi então que compreendeu que a Criatividade não é algo que se aprisiona dentro de uma jaula e guarda para si. É algo que surge quando se está disposto a se misturar com o mundo, seguir por caminhos incertos, olhando lugares nunca vistos, conversando com pessoas que não conhece. Só quando se entrega verdadeiramente para uma vida de troca com o mundo é que a magia da criação se aproxima e segue ao seu lado.

Sorriu um pouco sem graça com a sua descoberta — como não tinha pensado nisso antes? — e seguiu seu caminho na companhia da sua Criatividade, que agora corria livre à sua volta.


Esse foi o oitavo texto do desafio #30ideiasem30dias #eapalavraeh, para saber mais, clique aqui!

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Amanhã tem mais! #ficaadica