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11/30 — Lições de mergulhador.

Quando a gente começa a mergulhar uma das primeiras coisas que aprendemos é que um mergulhador nunca mergulha sozinho. Não se vai para o fundo do mar sem levar pelo menos uma pessoa junto com você. Portanto, mergulhar não é uma atividade individual.

Logo, sendo uma atividade desenvolvida em grupo, temos a maravilhosa oportunidade de aprender muito sobre nós mesmos, e sobre como nos comportamos no mundo.

Todo grupo, por menor que seja, é uma reprodução micro do que vivemos no macro, que é o planeta Terra.

Então os aprendizados que temos ao começar a mergulhar podem ser valiosas lições para a vida!

Os aprendizados começam no barco.

O barco de mergulho é um espaço limitado e cheio de perigos onde você e um grupo de pessoas que tem o mesmo propósito que o seu — mergulhar — seguirão juntos por um determinado período de tempo.

Essas pessoas podem ser conhecidas ou não. Podem ser todas do mesmo grupo de mergulhadores ou podem ser de grupos diferentes. Logo de cara, o primeiro aprendizado que se tem é a convivência com a diversidade! Diversidade de culturas, de hábitos, de níveis de experiência, de expectativas. Tudo isso misturado em um espaço super reduzido.

É um grande exercício de tolerância e desapego de atitudes individualistas que descobrimos que não são necessárias no contexto do grupo. Aprendemos a valorizar a boa convivência focando em atitudes que fortalecem o grupo, e evitando desarmonias.

Outro aprendizado importante é o valor da organização. Quem já esteve em um barco de mergulho sabe a confusão que é. Equipamentos que podem se confundir, cilindros cheios e vazios muitas vezes lado a lado, pessoas com níveis diferentes de habilidades para estar ali, muita alegria, ansiedade, expectativas e de quebra, o balancinho do mar para dar aquela nauseada nos mais incautos.

Portanto é muito importante organizar muito bem o seu equipamento, saiber onde estão as suas coisas, verifique se o que você está mexendo ou pegando é realmente seu. E isso leva a outro aprendizado: Cuidar de você já é um cuidado com o grupo. Assim, ninguém sobrecarrega ninguém evitando acidentes ou discussões bobas.

Como já disse antes, não mergulhamos sozinhos, vamos em duplas. Então aprendemos que apenas o cuidado com a gente não é suficiente, é muito importante também cuidar da pessoa que vai mergulhar nessa aventura com a gente.

E esse cuidado começa no barco com a checagem dos equipamentos do dupla. Precisamos saber se a pessoa que vai para a água com a gente está preparada, se os equipamentos estão montados direitinho e em pleno funcionamento. Precisamos ver se o dupla está bem emocional e fisicamente para nos acompanhar. Esse cuidado é fundamental pois, uma vez embaixo d’água, a sua vida depende da vida dele e vice e versa. Então percebemos que cuidar do outro é também um ato de cuidado com você mesmo.

Mas o propósito de enfrentar esse barco, cheio de diversidades e com tantas coisas para prestar atenção é um só: mergulhar. E é mergulhando que continuamos nossa sequência de aprendizados.

Os aprendizados continuam embaixo d’água

É dentro d’água que as diversidades muitas vezes se acentuam. Existem vários perfis de mergulhadores:

  • Tem aquele que gosta de bater perna, liga o motorzinho e vai à toda velocidade tentando cobrir a maior área possível durante o mergulho. Geralmente vê animais maiores ou volta do mergulho reclamando que não viu quase nada;
  • O seu oposto é aquele que nem parece que tem nadadeiras. Quase não bate perna, aprecia cada detalhe do mergulho (e olha que são muitos), encontra peixes minúsculos no meio de um aglomerado denso de algas e corais. É observador ao extremo e volta contando histórias de bichos que ninguém viu;
  • Tem o fotógrafo desatento, que está mais preocupado de tirar fotos dos outros e do mergulho do que cuidar do seu dupla. Não é muito raro tipos como esse se perderem durante um mergulho;
  • Tem o preocupado com todos. Não desgruda o olho do dupla, do grupo. Geralmente fica mais para trás de onde pode olhar todo mundo e ver se não tem ninguém se perdendo ou se arriscando. Esse aí costuma não curtir o mergulho e passar muita raiva;
  • E ainda temos as diferenças técnicas, de nível de certificação, de experiência no mergulho e finalmente, de consumo de ar. O consumo de ar é um dos principais fatores determinantes do tempo você vai ficar embaixo d’água — pelo menos no mergulho recreativo. Quem consome muito ar acaba com o cilindro rapidinho, ao contrário de pessoas que tem o consumo baixo que acabam podendo fazer mergulhos de mais de hora dependendo da profundidade.

Já deu para perceber que escolher o dupla não é uma coisa muito fácil, não é? E essa escolha fica mais séria ainda por saber que ela vai afetar significativamente a tua experiência dentro d’água.

Para uma escolha acertada é preciso primeiro que a gente se conheça muito bem em todos esses aspectos mencionados acima, e que a gente saiba direitinho o propósito desse nosso mergulho para poder alinhar todos esses fatores, escolher a melhor dupla e aí poder fazer um mergulho fantástico! Portanto conhecer a si mesmo, ao outro e a situação que vão enfrentar, ajuda muito a potencializar a qualidade da sua experiência.

Ao escolher seu dupla, você alinha conhecimentos, técnicas, experiência, perfil de mergulho, consumo de ar. Tudo isso para poder ter um mergulho seguro e confortável.

Outra coisa que é muito respeitada durante o mergulho é o nível de aprendizado do mergulhador. Nunca se exige de um mergulhador que ele vá além das suas habilidades, conhecimentos ou segurança — a não ser que seja em um treinamento acompanhado por pessoas experiente.

Em situações arriscadas, se colocar fora da sua zona de domínio de conhecimento pode custar a sua vida. E como não existe policial embaixo d’água para fiscalizar se você está ou não obedecendo as limitações do seu nível de aprendizado, cabe a você reconhecer e respeitar seus limites pessoais e do seu dupla.

Você passa a reconhecer o valor de conhecer e respeitar suas limitações e as limitações dos outros e a trabalhar pacientemente para supera-las com segurança.

Outro mandamento importante no mundo do mergulho é que qualquer mergulhador, pode a qualquer hora, por qualquer motivo, interromper o mergulho. Não é vergonha encerrar um mergulho antes do tempo. E nesse momento o dupla deve acompanha sem questionar. O porquê da interrupção você descobre na superfície.

Aprendemos então que tem situações onde é importante a respeitar as necessidades dos outros sem questionar ou avaliar o que o outro está sentindo de acordo com as nossas expectativas.

Também é embaixo d’água que aprendemos o valor da comunicação clara. Durante um mergulho não é possível se comunicar com palavras (a não ser que você, o seu dupla e o barco tenham um caro equipamento de comunicação).

Para suprir a falta das palavras aprendemos novos sinais, planejamos o que será realizado, alinhamos a comunicação com quem vai mergulhar com a gente de forma que não exista lacuna nenhuma.

Aprendemos então a importância de alinhar a comunicação, de planejar as ações antes de realiza-las e de estabelecer alternativas prevendo possíveis erros.

Finalmente, aprendemos que a maior felicidade que existe é voltar para o barco e compartilhar com os amigos histórias sobre tudo o que você viu, sentiu e viveu.

Aprendemos a contar as nossas histórias e a ouvir as histórias do outro. Porque cada mergulhador tem uma história diferente para contar sobre o mesmo mergulho. E todas as histórias são lindas.

Aprendemos também que mesmo com todas as diferenças, temos uma coisa que nos une, que nos faz parte de um mesmo mundo e que é a razão pela qual estamos ali juntos: o amor pelo mundo sub e pelo mergulho. E essa única coisa é que nos faz, mesmo com todas as nossas diferenças, nos esforçarmos para conhecer e aprender a melhor forma de vivermos juntos essa experiência maravilhosa!


Esse foi o décimo primeiro texto do desafio #30ideiasem30dias #eapalavraeh, para saber mais, clique aqui!

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Amanhã tem mais!