Tudo começou com um sim…

…Para o convite de uma amiga para passar o carnaval de 2012 em uma fazenda de permacultura no sul de minas aprendendo um pouco sobre bioconstrução.

O convite foi inusitado e o sim saiu mais fácil do que eu e ela imaginávamos. Estava sem nada programado e a ideia pareceu diferente o bastante para cativar meu interesse.

O que não sabia na época, é que esse pequeno sim me levaria à uma sucessão de fatos que mudaria completamente a minha forma de encarar o mundo, me jogando num profundo processo de autoconhecimento que sigo trilhando até hoje, 5 anos depois.

O destino era Santa Cruz do Rio Verde, na fazenda Morada Natural. A proposta era passar 5 dias aprendendo diversas técnicas de construção com barro como adobe, pau a pique e superadobe, telhado verde, tinta natural, em um ambiente já projetado para isso e com um ritmo de vida próprio.

A dieta era ovo-vegetariana (sem leite) e iriamos dormir num alojamento de cob, no meio de uma grande área aberta cercada de mato e bambu. O banheiro era seco, daqueles que você usa folhas de árvore para ajudar a decompor as fezes para usar como adubo e o xixi era feito em um outro banheiro com água, comum, dentro da casa principal.

A rotina era puxada. Acordávamos às 6h da manhã, assim que o sol raiava, o que pra mim era surreal, já que passei anos trabalhando à noite, indo dormir tarde e acordando tarde também. Aí era tomar café e começar o trabalho. Na parte da manhã tínhamos aulas teóricas e algumas práticas e na parte da tarde mão na massa. Final da tarde era hora do banho, em chuveiro com aquecimento solar. Depois janta e papeamento sobre qualquer coisa com a galera. O sítio não tinha luz elétrica em todas as áreas, então cedinho, por volta das 21h, já estávamos todos dormindo.

Durante os 5 dias produzimos vários tijolos de adobe, aprendemos a tratar bambu para uso em construção e móveis, erguemos uma pequena casa de superadobe com janelas, portas e telhado verde! Aprendi muito sobre o que a nossa terra pode nos dar de possibilidades e o quanto essa reconexão com a nossa essência natural nos faz bem.

Também me impressionei com o poder do fazer coletivo que experienciei com o trabalho em mutirão. Éramos 28 pessoas no curso e dois instrutores, e juntos conseguimos erguer a pequena casa e finalizar o telhado em 4 dias de trabalho alternados com aulas, saídas de campo e tempo pra relaxar. Para mim, que nunca tinha colocado um tijolo sobre outro, foi um feito incrível e que só foi possível com a ajuda de todos que estavam ali.

Agora, o que mais me cativou em toda a experiência, foi a diversidade de vidas que tínhamos no grupo. Haviam pessoas de todo o país, de várias idades, dois estrangeiros, crianças, duas moradoras locais que estavam fazendo nossa comida com muito carinho. Eram tantas histórias, tantas possibilidades de vida se realizando e mostrando que a diversidade faz parte do mundo e que sim, você pode e deve expressa a sua diversidade, que meu coração se sentiu tocado por conhecer tanta beleza.

E não eram apenas histórias de sucesso, histórias boas. As pessoas compartilharam também, durantes as conversas, aspectos mais delicados, momentos difíceis, dúvidas e incertezas. Eram pessoas que falavam abertamente e de forma confortável sobre o que as fazia vulneráveis.

Alguns anos depois, quando conheci o trabalho da Brené Brown, descobri que expressar sua vulnerabilidade é o que realmente aproxima, conecta e cura as relações humanas. E essa conexão criada pelas conversas de coração aberto que fez ser tão transformadora e intensa a experiência vivida naqueles 5 dias entre pessoas totalmente desconhecidas e que saíram de lá com a sensação de que se conheciam há anos.

Acho que esse é um dos poderes do trabalho em conjunto realizado com intenção e amor. Ele conecta as pessoas em um nível que vai além do racional, cria significado para o que está sendo feito e para as relações que estão nascendo através daquele trabalho. O ato de construir junto talvez seja o maior ato de fortalecimento do sentimento de comunidade e de pertencimento, dois sentimentos que são muito benéficos para a nossa saúde emocional, psicológica e física. O ato de construir juntos é que nos torna humanos.

E a esse construir quero dar agora um significado mais abrangente. Não é apenas erguer uma casa, montar um objeto. Construir aqui deve ser entendido como ato maior de criação. Construir relações, construir sentimentos, construir a história da sua vida e junto a história da vida do mundo.