Café. Cerveja. Cigarro. Que saudade dos meus vícios. O problema das noites altas é que elas sempre me lembram o momento em que eu me encontrava completamente sozinha em um lugar qualquer. Não importando todos os gritos de “vem, miga!” e os corpos aparentes me puxando em várias direções, eu só seguia pensando no quão sozinha eu estava. Até que deixei de ir. Deixei de procurar vazios e me joguei num vazio só. Decorei, reformei, ficou irreconhecível. Tudo por uma decisão determinada de declarar, em letras garrafais: “eu sinto x, eu quero y”.

Talvez eu estivesse errada sobre querer y. De onde eu tirei que eu queria y coisas na minha vida? Sobre o que eu sentia, não duvidava. Mas segui por um caminho irritante, frustrante, e no fundo me sentia tão vazia (ou só parcialmente preenchida) tanto quanto as noites altas por aí. Encontrei um refúgio aqui, é verdade, e lembrei o quanto gosto de ficar sozinha. Mas não tira o cansaço. As feridas quase cicatrizadas nos meus pés não tiram o cansaço. A vontade de torná-las maiores também aumenta, mas é controlável. Na real, não tem porque. Não que algo tenha. Daqui a pouco preciso comer, arrumar, sair, dirigir num engarrafamento cansativo, tomar um café ruim em um lugar que eu não queria estar e fingir que estou prestando a atenção em coisas que não chegam nem perto de me interessar.

Interessariam, se eu estivesse bem. Interessariam, se eu não estivesse tão vazia. Interessariam, se eu soubesse com certeza que eu quero seguir z caminho na minha vida, e não y.

Eu preciso almoçar. São cinco da tarde e eu protelei essa atitude o quanto pude. Ainda que a casa esteja deserta, sair do meu vazio e encarar o vazio de lá me lembra a interseção do vazio dos outros com o meu vazio. E como o vazio de alguém pode ser tão cheio quando junto do seu. E ainda assim, tudo ser vazio.

Vazio.

Completamente vazio.

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