parabéns II

O dia canta uma melodia harmoniosa,

os pássaros brilham como intermináveis estrelas

e ainda estou aqui,

uma afronta à natureza

que violentamente apresenta

o convite insuportável

de seguir.

Apesar das aparências, continuo na árida trilha de viver. Não desisti completamente do ato — até mesmo essa decisão se apresenta como uma tarefa infernal. Continuo como muitos, mas ainda muito melhor do que muitos mais. Estudante, trabalhador, fodido. Qual é, pois, meu prêmio de consolação? A noção de que existem aqueles que tão se fodendo mais. O que era pra ser dádiva — minha condição existencial — contraditoriamente e como um deboche do destino, manifesta-se como um doloroso flagelo dentro de mim.

A consciência de se estar andares acima dentro do grande prédio não possibilita nem que minha angústia se auto-justifique. A noção de saber que sou apenas parte da nata vencida da classe média desse burgo decadente é a maldição genética que me aflige; é culpa de meramente existir, de saber que sou e estou para sempre preso nessa condição,

é a dor de saber que a própria dor, que a mera possibilidade de auto-reflexão acerca de meu sofrimento é apenas a materialização de um egoísmo masoquista, uma auto-flagelação moderna, um triste sintoma da doença do cidadão do mundo dos indivíduos.

O conhecimento nunca me emancipou. Ele me matou. A partir do momento de que se vê por trás das cortinas desse imundo circo, a realidade se torna grotesca. É o horror sem fim, as injustiças mais covardes, os shows mais cínicos, os discursos mais hipócritas, as mentiras mais cretinas. A carcaça de um sistema cadavérico, putrefato, um morto-vivo repugnante cobre o planeta com suas instituições decadentes, afundando a humanidade e os coabitantes terrenos num esgoto sem fim.

Depois que se vê por trás das cortinas, estabelece-se um ponto de não-retorno. A existência se torna intragável, e cada esquina que se vira pesa com o peso de todos universos massacrados pela brutalidade do cotidiano. A culpa e a angústia latejam como cancros dentro de mim a cada troca de olhares,

e as engrenagens da cidade trituram — são lubrificadas com sangue.

Alguns, por aí, visualizam no distante horizonte algo que não seja essa miséria infinita que nos oprime tão barbaramente.

Pois, é verdade,

há um lindo horizonte

mas, céus,

como sou míope,

não enxergo mais

tudo está esvanecendo

eles veem o crepúsculo,

eu,

noite adentro.

    guilherme barreto goulart

    Written by

    necromante da esquina