Reflexo

Olho para o espelho e algo me para. Não gosto do que vejo, mas tenho que conviver com isso. Não é hora de olhar meu reflexo e encarar mais uma crise existencial, até porque eu não tenho tempo para isso. Preciso dormir para conseguir acordar cedo para o trabalho. À noite eu não consigo dormir bem, acordo diversas vezes durante a madrugada e repasso tudo na cabeça, mas em um segundo é como se não tivesse passado nada e o vazio é tudo que preenche, não só minha mente, mas preenche meu coração e minha alma. Já me acordei tantas vezes que nem vontade de voltar a dormir tenho mais, ao menos que seja um sono eterno. São minutos antes do que estou acostumado, mas levanto para tomar banho logo. Está frio então coloco o chuveiro na maior temperatura que meu corpo aguentaria, lembro que antes não suportava tomar um banho tão quente assim, ardia na pele, mas me acostumei a dor, desliguei a liberdade de poder sentir uma dor simples e física quando o que existe no meu ser dói e machuca bem mais. No caminho do trabalho tento desligar meus pensamentos, sempre é um processo que tenho que passar todo dia, se não faço isso preciso me levantar para ir ao banheiro chorar em um dos boxes e ter que disfarçar uma alergia ou resfriado caso alguém veja meu rosto avermelhado. Ao andar pelos corredores encontro diversas pessoas que interajo e preciso ser simpático, disfarçar a dor é algo que sempre me acostumei já que, independentemente de qualquer problema que ocorriam em minha casa, meus pais sempre me ensinaram a não deixar transparecer, pois não queríamos dar motivo para outras pessoas diminuírem nossa harmonia que passávamos tão bem. Então ando pelos corredores desejando um ótimo dia para todos, penso que já que meus dias não são os melhores, pelo menos os deles poderiam ser. Quando chega meu horário de ir, entro no ônibus e coloco aquela playlist melancólica que sempre escuto e penso bastante no que há em minha vida, mas não choro, pois não me permito chorar em público. Às vezes eu percebo que o que ando guardando dentro de mim é pesado e pode explodir ou ao menos desmoronar, mas já me acostumei a carregar esse peso. À noite faço exercícios físicos para ter algo de bom em meu corpo, um pouco de saúde. Quando corro me imagino em lugares diferentes onde sou livre e feliz. Volto para meu quarto no fim do dia e detesto o meu reflexo novamente. Dependendo até me comunico, digo algo motivacional, maioria das vezes ressalto o quão patético é, porém, o mais habitual é o olhar de reprovação, pois sei o potencial que tens, sei o quanto podes crescer, mas conheço as limitações e tenho raiva por não conseguir burlar todas elas e evoluir. Talvez isso dure para sempre. Talvez seja só uma frase. Olho para o espelho mais uma vez e algo me para. Não gosto do que vejo, mas tenho que conviver com isso.

“Agora eu quero ir, pra me reconhecer de volta. Pra me reaprender e me apreender de novo.”