Gabriel quer saber por quê — Ep.3

O que leva um doutor em Física a se aventurar na Psicologia e propor uma pesquisa altamente criticada por alguns cientistas?

Imagem meramente ilustrativa

Por Elida Oliveira

(este é um trecho do perfil do físico Gabriel Guerrer. Para ler os demais episódios, clique nos links ao final deste texto)

Episódio 3

Gabriel Guerrer concluiu a pesquisa na Suíça naquele ano de 2009 e, logo depois, voltou ao Brasil. Defendeu aqui o doutorado, tentou um pós-doutorado fora do país… mas teve três projetos negados pelas instituições internacionais.


Sem nada que o motivasse, Gabriel fez o que sabe: improvisou. Comprou um fusca, chamou de Dorotéia, caiu na estrada. Tinha que lidar com o vazio em que se encontrava.

A forma de Gabriel lidar com o vazio é se jogando na natureza. E assim o fez. Adepto das escaladas desde 2002, foi para a Serra do Cipó, em Minas Gerais.

A escalada é praticada sempre em duplas, para que um faça a segurança do outro que sobe. As pedras contêm ganchos onde o esportista prende a corda até executar o próximo movimento. Na base, uma das pessoas da dupla segura a corda, fazendo o apoio. A cada parada, o escalador que sobe observa a rocha e suas fissuras para saber onde vai colocar as mãos e os pés para se deslocar de modo seguro.

Às vezes, é preciso se lançar de um ponto a outro, dando um salto, esperando que sua mão alcance o apoio. Se o movimento for mal executado, o escalador cai até que a corda o segure no último gancho ao qual foi presa. Se o último gancho estiver a muitos metros abaixo, a queda pode ser grande.

O contato com a natureza, o confronto com os limites, a concentração, a força e a técnica dão ao esporte um caráter quase meditativo. É preciso estar em sintonia com o corpo e com o agora para executar os movimentos exatos e não cair penhasco abaixo. É preciso controlar o medo, mas não qualquer medinho. É preciso controlar o medo da dor e da morte. O vazio que ele sentia, diante deste cenário, era fichinha.

Lá, Gabriel se deparou com o medo. Ele entrou em uma via (um tipo de rota de escalada na pedra) que estava além das suas capacidades física e técnica. Estava cansado, prestes a desistir. Gabriel parou para descansar. Sua mente dizia que ele não conseguiria. Pendurado na pedra, segurava-se com uma mão enquanto soltava a outra para balançar o braço, descansado um de cada vez.

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Concentrou-se. Olhou para cima. Ainda precisava subir cinco metros até chegar ao seu objetivo. A mente dizia que ele não tinha forças, que ia cair, que jamais chegaria ao topo. O amigo que fazia o apoio na base, o Alexandre, começou a gritar do chão, para incentivá-lo: Vaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.

Era questão de vida ou morte, nada mais existia. “Depois de um certo ponto, eu já não era mais o ‘eu’ de hábito — estava experienciando o estado de um guerreiro em batalha.”

Tomado por uma espécie de fúria que, em cada movimento, vinha acompanhado de um berro visceral, Gabriel venceu cada centímetro daquele trecho que o desafiava.

De onde veio essa força? O que aconteceu ali? Gabriel não sabe explicar.

Voltou para Curitiba, comprou um carro — um Gol branco 1998. Chamou de Dorival. Depois, não chamou mais. O nome não ‘pegou’. “Só o Fusca tem alma”, brinca.

Foi o não-Dorival que o levou para outra jornada importante em sua vida. Subindo o mapa do Brasil, fazendo paradas, conhecendo gente, alguém sugeriu que ele fosse fazer uma caminhada nos Lençóis Maranhenses até a Queimada dos Britos.

Com a ajuda de um guia experiente da região, caminhou durante mais de dois dias só para chegar à Queimada, carregando uma pequena mochila com suprimentos e água para a jornada.

Gabriel foi, areia adentro, pedra em pó. Imagine a imensidão.

A paisagem estava repleta de Sol, céu e areia, areia, céu e Sol. Barulho de nada. Tudo o que se ouvia era a sua própria respiração. O Sol forte incidia sem dó, mas o calor era suportado graças ao vento constante que moldava a paisagem, lapidando as montanhas instáveis de areia.

O guia, mais experiente na marcha lenta por aquelas bandas, já estava à frente. Gabriel andava devagar, cansado. Pé após pé, afundava um, levantava o outro na areia fofa e branca, sabe-se lá há quantas horas naquele mesmo compasso.

Andava. Lá pelas tantas, quando Gabriel olhou para o horizonte, o Sol já estava quase se pondo. Os últimos raios que atingiam a Terra desenhavam uma aquarela no céu. Amarelo, alaranjado, rosa, púrpura. A esta altura, o guia era um pontinho no horizonte. A solitude levou Gabriel a desligar o que sobrou da mente racional e se entregar àquela experiência. Teve bastante tempo para soltar os pensamentos e para atribuir significados ao que via.

“Foi uma das paisagens mais lindas que já vi na minha vida. Ali… alguma coisa aconteceu”, disse. “Eu tenho uma formação crítica, posso pensar que tudo o que aconteceu foi porque os processos químicos do meu cérebro deram uma embaralhada no que eu via. Mas não era só isso. As coisas faziam sentido, tinham um começo, meio e fim.”

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(Este é um trecho do perfil do físico Gabriel Guerrer, produzido para a pós-graduação em Jornalismo Literário — EPL. Confira o Episódio 1, o Episódio 2, Episódio 3, e o Episódio 4)