Sobre Beyoncé, lugares em-comum e cura

Minha experiência com Lemonade é muito intensa e pessoal. Não ia escrever sobre por não me caber explicar sentimento. Mas essa matéria, essa outra e as opiniões tão “não consigo abrir mão do meu umbigo privilegiado” me fazem querer repetir: não é sobre um cara, submissão, ser barraqueira, a “Becky do cabelo bom”, amargura ou qualquer outra desculpa que possa tentar ofuscar o brilho da representação — à altura e merecida. Nunca foi nada disso. Essa conversa é sobre mulher negra que impulsiona mulher negra. Uma que segura as mãos da outra dizendo “estamos juntas e eu sei o que é isso aí, parceira”. Convivam com o fato de que nossos tempos são de revolução. Ela sempre soube que, sim, era um diálogo entre nós.

“Por que falar sobre “Becky” quando você pode falar sobre a arte de Beyoncé?” — Zeba Blay, HuffPost Women

Zeba completou: “Bem, se vocês estão focando na Becky, então não entenderam nada. O ponto é o seguinte: Lemonade não é sobre com quem Jay-z traiu a Beyoncé. É sobre a força da Beyoncé — e a resiliência de mulheres negras de vários lugares”. Amandla Stenberg ressaltou via Twitter: “Obrigada Beyoncé por nos lembrar de nossa força”. Recebemos os sinais dessa irmandade. Ela falou das minhas dores, mas quis em todo tempo tocar e me lembrar das minhas potências. Lembrou de quando chorei pedindo que não fosse aquilo que eu não queria descobrir, mas cantou doce em Freedom:

“… Quebro as correntes sozinha. Não vou deixar minha liberdade queimar no inferno. Ei! Vou continuar correndo. Pois uma vencedora nunca desiste de si mesma…”

Isso é grandioso demais pra ser compreendido por quem não está nesse lugar. Por isso, eu e outras que são o alvo da Bey, choramos junto. Por isso nós dançamos junto e cantamos forte em Sorry. É muito imenso pra fazer sentido em outros corações. Esse momento épico, essa grande celebração do poder de cura que a sororidade e unidade podem promover.

Bell Hooks já havia avisado quando falou do amor restaurador:

“Quando nós, mulheres negras, experimentamos a força transformadora do amor em nossas vidas, assumimos atitudes capazes de alterar completamente as estruturas sociais existentes. Assim poderemos acumular forças para enfrentar o genocídio que mata diariamente tantos homens, mulheres e crianças negras. Quando conhecemos o amor, quando amamos, é possível enxergar o passado com outros olhos; é possível transformar o presente e sonhar o futuro. Esse é o poder do amor. O amor cura.”

Pensei em mim, nas incríveis Meninas Black Power, aquelas tantas mulheres geniais que apareceram no vídeo, outras de nós que estão revelando magia ao redor do mundo. Somos esse amor movimentado. Nós, engajadas com nossa mudança, com nossa reconstituição. Estamos vindo de tempos de pesos e perdas e não esperamos mais consentimento de quem não sabe o que é estar em nosso lugar. Independente da classe social, nível acadêmico, pigmentação, texturas, lugar onde reside ou qualquer coisa que nos diferencia, estamos nos agrupando. Somos iguais. Como Beyoncé nos refazendo, nos reerguendo e entendendo que é entre nós essa conversa.

I ain’t sorry
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