Resenha: Nem Tudo Será Esquecido

Tenho sido um espectador curioso até agora, um observador expressando meus julgamentos e emitindo opiniões.

Nem Tudo Será Esquecido foi minha primeira leitura de suspense psicológico, primeiro contato com a produção da escritora Wendy Walker e também pela primeira vez acompanhei uma narrativa totalmente guiada por um terceiro personagem que era o único a observar, dialogar com o leitor, repassar as outras falas e entrar na mente dos outros envolvidos. Senti-me abordada pelos seus questionamentos e desabafos feito por sua “voz” sem nome, sem corpo durante muitos capítulos, ativando a cada leitura a minha curiosidade.

As memórias podem ser arquivadas e, subsequentemente, perdidas ou apagadas. Elas também podem ser guardadas, mas mal arquivadas e, por isso, difíceis de recuperar. Esses dois acontecimentos são formas de “esquecer”…

Como é possível notar, fazendo jus ao título, posso afirmar que tudo o que vivi durante tantas leituras intensas e surpreendentes, só me resta declarar que, nem tudo será esquecido, realmente. A mistura de dramas e suspense ficarão por muito tempo se reconectando em minhas lembranças, mesmo que eu tenha sentido no início da leitura muitos altos e baixos, pela lentidão cansativa que senti no desenrolar dos primeiros capítulos e isso acabou me causando um certo desânimo por conta de tantas referências explicadas minuciosamente, porém, a narrativa depois de um certo ponto foi crescendo e me cativando, por isso chego a conclusão que não me arrependo pela escolha da leitura e a faria novamente ou buscaria outro título dessa autora, se houver outros com a temática da psicologia presente no enredo.

Estou aqui porque fui estuprada. Sou a garota a respeito de quem todos vocês provavelmente leram. Tomei umas drogas para me esquecer do que aconteceu e, de fato, agora não lembro. É difícil não lembrar. Muito difícil.

O suspense se inicia com uma forte e aterrorizante cena de estupro dentro de uma mata que ficava próxima à festa, onde se reuniam muitos jovens da cidade Fairview, em Connecticut. A vítima foi uma adolescente de apenas 16 anos, chamada Jenny Kramer. Essa monstruosidade trouxe para esse lugar pacato uma onda de pavor que também mobilizou moradores e a polícia para tentar desvendar esse doloroso mistério.

Por orientação médica, seus pais, Charlotte e Tom Kramer, totalmente ainda perturbados pela pesada realidade e não querendo que sua vida tão perfeita familiar fosse abalada, aceitam sem muito pensar que a filha receba em seu organismo uma droga que a faria esquecer totalmente as cenas daquela noite. Eles acreditavam que a falta de lembrança permitiria que tudo continuasse a ser como era antes e que nada em sua mente seria afetado, sendo assim, ela prosseguiria normalmente suas rotinas, como se aquele dia se tornasse uma folha em branco de seu caderno de estudo ou diário… Porém, após um ano, a ausência da lembrança provou àqueles pais que suas vidas jamais seriam a mesma se não houvesse esforço em conjunto para abrir novamente aquela porta que estava trancafiada no passado.

Cada cérebro é diferente. E assim deve ser cada terapia. Nunca presumo saber o que vai funcionar. E por “funcionar” quero dizer ajudar, porque é isso que buscamos: ajuda para um ser humano escapar da dor infligida por sua própria mente.

Para que houvesse a cura dos sentimentos e o regresso das lembranças, um profissional da mesma cidade foi contratado para “ajudar” Jenny Kramer a buscar dentro de si mesma as respostas que ninguém deu, as memórias danificadas e expulsar definitivamente os fantasmas que a atormentavam.

…É quando contamos nossas histórias, às vezes com detalhes meticulosos, e observamos as expressões dos outros conforme eles absorvem as palavras. Extraímos deles simpatia, alegria, compreensão. Fazemos isso para não caminharmos sozinhos lentamente para a morte. A empatia está bem no centro de nosso ser. A vida é dolorosa sem ela.

Como sabemos, traumas só serão curados se conseguirmos expor o local que ainda dói e por mais que tentemos esquecê-lo, a cicatriz mal curada não nos deixará ignorar a dor que vaga dentro de nós silenciosamente, causando incômodos e agulhadas lancinantes indicando que por baixo da pele fina avermelhada ainda existe uma ferida e que ela ainda precisa ser tocada, exposta e novamente tratada até vir a verdadeira cura, que só acontecerá de dentro para fora.

Nem Tudo Será Esquecido, nos mostra através de várias vidas machucadas que os terremotos emocionais mais fortes e profundos que já vivemos, não precisam ser esquecidos para que a vida tome um novo rumo em nosso caminho. Após todos os tropeções que já vivemos e nos levaram a cair várias vezes, é necessário reconhecer que ainda podemos nos erguer e com ousadia, prosseguir.

Uma vez que os limites se rompem, eles não podem ser reconstruídos. Eles não são paredes feitas de gesso ou tijolo. Eles existem na mente, como palavras que não podem ser desditas.

A partir de uma história triste e assustadora sobre uma violência física e emocional, Wendy Walk teceu nesse livro muitos personagens que me surpreenderam por meio de muitas revelações que estavam totalmente fora de minha imaginação, pois estava focada somente em como essa adolescente conseguiria sobreviver a uma vida provavelmente paralisada depois daquela terrível noite. Mas, logo compreendi a teia que a autora criou interligando a cada página todos os personagens com seus segredos obscuros, independente do que houve com Jenny. A cada revelação maravilhosamente escrita, a autora estava preparando aos poucos o meu fôlego e ansiedade para a chegada de uma única e definitiva colisão entre todos os personagens e suas memórias estavam perdidas ou camufladas no passado/presente de suas inacreditáveis histórias… finalizando uma história maravilhosamente escrita de forma impressionante!

Na verdade, tenho pra mim que, seja nesse livro fictício ou na realidade que está fora dele, é imprescindível sabermos que todos nós temos uma porta que insistimos em esquecê-la, a trancando no passado e sempre a silenciando no presente, deduzindo assim que no futuro não será preciso existir respostas ou significados para que a vida continue equilibrada, porém, em nossa inédita existência nada, nunca deve ser esquecido, porque são por meio de nossas experiências, e estou citando as que foram/são duras e nos lapidam sempre, que poderemos sempre reescrever, se assim for necessário, um novo capítulo em nossos dias.


Originally published at www.leiturasdapaty.com.br on July 12, 2017.