Eu não sei fazer dívidas e você?

Meu primeiro problema sério com dívidas aconteceu na minha primeira dívida.

Era o início de minha jornada acadêmica em um curso de engenharia, numa faculdade particular. Já fazia dois anos que estava morando nesta cidade que escolhi para continuar meus estudos ainda no colegial.

Eu mantinha meu custo de vida bem baixo, pois morava em uma pensão e me locomovia para a faculdade de bicicleta. Mas a faculdade tinha uma mensalidade na época (2002) alta para meu padrão de vida.

Tentei uma bolsa de estudos, mas sem sucesso, quando me foi oferecido o FIES (financiamento estudantil). Consegui o financiamento bem rápido, o que na época foi um misto de sentimento de vitória e me pareceu um excelente negócio.

Ledo engano, o financiamento cobriu 70% da mensalidade do curso, a juros de 9% ao ano. Quando terminei a graduação estava com uma dívida que veio crescendo como uma bola de neve e chegou a mais que o dobro do valor tomado como empréstimo para pagamento do curso.

Se não bastasse o fato de ter que carregar este fardo por mais 10 anos o que totalizaria 18 anos para pagar todo aquele montante, o pior foi o arrependimento de não ter feito diferente.

Na época não tinha dimensão do tamanho que isso se tornaria, os custos daquele alivio do momento não eram óbvios para mim. Fui ingênuo em não entender o custo real da dívida.

Aprendi que quando você consegue um empréstimo no banco e você não tem histórico de crédito ou boas garantias para oferecer, o risco aumenta e isso vai refletir no custo dessa dívida.

Dívidas são perigosas quando você não entende!

A importância de entender

Veja que eu não sabia da enrascada que estava me metendo.

Hoje com o conhecimento de educação financeira que tenho eu faria diferente. Eu tenho certeza que se tivesse feito um sacrifício eu teria pago a faculdade a vista como vi alguns colegas fazerem.

Ao longo desses anos de convivência com este problema eu pude conversar com algumas pessoas que optaram pelo mesmo caminho que eu. Vi relatos de pessoas com muita dificuldade, pois quando entrou no mercado de trabalho, o salário era menor que a parcela do financiamento.

Li relatos em fóruns sobre o FIES, de pessoas inadimplentes, buscando a justiça para tentar rever os termos do contrato.

Muitos estudantes assim como eu não compreendia este tipo de dívida.

E o custo?

Hoje eu entendo perfeitamente que gastar o que eu não tenho vai me tornar mais pobre.

Antecipar consumo quase sempre não é uma boa escolha e é grande a parcela da população que fazem dívidas para financiar consumo como carro, eletrodoméstico, casa e até viagens.

É assustador ver o efeito dos juros pagos nestes financiamentos e pior ainda ver que as pessoas não entendem os custos envolvidos antes de tomar a decisão, que quase sempre é mais do que nós imaginamos. As pessoas olham somente se conseguem pagar a parcela.

Normalmente esta é uma decisão que leva em consideração somente o presente, mas que vai afetar o seu futuro. Qualquer imprevisto que ocorrer no meio do caminho vai demandar ajustes na sua vida financeira que pode estar fora da suas capacidades.

E vai acabar?

Educação financeira não é ensinada na escola e raramente é ensinada em casa. As empresas e também o governo não tem interesse neste tipo de educação pois eles tiram uma enorme vantagem da sua ignorância.

Outro dia ouvi uma história contada pelo meu pai que ilustra muito bem isso. Meu pai estava conversando com um amigo empresário, dono de uma loja de eletrodomésticos de uma pequena cidade. Meu pai também é comerciante do ramo de alimentos e estava curioso sobre o fato de o amigo dele efetuar vendas de a prazo.

  • Pai: Na sua loja você prefere vender a prazo ou a vista?
  • Amigo: Eu prefiro vender a prazo.

No fundo meu pai estava tentando entender uma prática que no negócio de alimentos é sinônimo de perdas. Venda a prazo em supermercados sempre foi um risco muito alto e tinha que ser controlado a todo custo para evitar perdas.

  • Pai: Por quê?
  • Amigo: Você é meu amigo, então eu posso te contar. Não compensa vender a vista, é muito melhor vender a prazo. Só para você entender, eu compro do fornecedor um produto por R$ 1.000,00 e vendo a vista na loja por R$ 1.200,00, pois o cliente chega com o dinheiro, dá aquela choradinha e eu dou o desconto. Já a pessoa que não tem dinheiro eu vendo em 10 parcelas de R$ 200,00 “sem juros”.

Na prática o proprietário da loja está vendendo o produto com a margem de lucro referente a operação do modelo de negócio dele e ainda está emprestando dinheiro para o consumidor pagar pelo produto e recebendo juros sobre a operação de financiamento.

Não existe nada de errado nesta operação. A questão que trago a discussão é que o consumidor faz uma dívida acreditando que existe parcelamento sem juros.

Se o consumidor neste caso fosse educado financeiramente ele faria a operação da seguinte forma. Controlava sua ansiedade pelo produto e juntaria por 6 meses o valor de R$ 200,00 e negociaria o produto a vista pelos R$ 1.200,00.

NÃO existe parcelamento sem juros

Gente lembre-se disso: NÃO existe parcelamento sem juros.

Quando você ver um produto anunciado por N vezes sem juros, faça da seguinte forma: Dá uma risadinha (hehe) interna, e fale para você mesmo: Isso não existe, os juros estão embutidos no preço do produto.

Táááá booommmm, não vou mais fazer dívida

Mesmo depois da minha experiência com dívidas eu ainda cometi mais erros, financiando casa e carro. Até que chegou um dia que eu tomei a decisão de mudar e colocar em prática o que eu estava estudando e aprendendo.

Não faço mais dívidas para consumo!

As taxas de juros no Brasil são insanas, ou seja, não faz o menor sentido pagar juros para adquirir passivo ou antecipar consumo.

Quem se educa financeiramente, no lugar de pagar juros, vai é receber juros nos seus investimentos, pois você brasileiro mora no paraíso dos juros. Paraíso para quem empresta dinheiro, não para quem toma emprestado.

Você percebe que a educação te confere uma enorme vantagem em relação a quem não possui?

Portando os problemas e dificuldade que você passa por conta de dinheiro é fruto de decisões erradas quando você optou por seguir pelo caminho do endividamento.

Pratique a regra básica da educação financeira: Gaste menos do que ganhe e não faça dívidas.

Artigo originalmente publicado em meu site http://inteligenciafinanceira.net/eu-nao-sei-fazer-dividas-e-voce/