Meu lugar na escrita

Escrever é minha expressão no mundo. É o que sou e também o que me torno a cada dia. O jornalismo é uma busca que muda o mundo de quem lê e de quem conta. Meu desassossego com as questões da humanidade é o que me faz querer escrever paulatinamente.

Escrever é preencher vazios e fazer separações das circunstâncias. A vida do jornalista não é fácil, pelo contrário, é doída, muitas vezes frustrante. É muito difícil fazer algo em que se acredita, é muito duro para qualquer pessoa, em qualquer profissão. É um ato de resistência.

Nesse sentindo a reportagem é valiosa para a profissão. Reportar é estar aberto a receber histórias e para isso precisamos nos expor a elas. Não tem jeito e nem graça contar da vida sem ser afetado por ela de alguma forma, e esse é o trabalho do jornalista.

Ser contadora de historias reais é o que é um repórter, não é o que fazemos, é o que somos. E o que nos constrói a cada dia nesse ato de resistência, é escolher o caminho mais difícil e aguentar, e seguir.

Documentar a história em movimento é uma responsabilidade enorme e nos deixar afetar por essa memória é uma tarefa ainda mais árdua. Nesse sentindo a internet nos deu outras possibilidades de contar histórias extraordinárias e mantê-las vivas dentro de um espaço e tempo imensurável.

O desafio de qualquer vida é ter voz. A voz é igual a palavra, ela nos escapa, mas é essa busca pela palavra que nos mantêm vivos e simboliza o que de fato é o nosso ato de resistência. É olhar para dentro de nós e ouvir a nossa voz e entender porque estamos contando essa história. Ser repórter é se despir de si e vestir o outro. E respeitar a voz do outro através da sua voz.

A escrita nos salva. Pela palavra a vida se torna possível. Nessa busca de capturar a vida, ela se torna possível. Essa possibilidade vem com o ato de sair da zona de conforto e seguir o incômodo que a vida traz.

Mário Vargas Llosa, escritor peruano, sempre dizia que a escrita é uma espécie de vingança. É algo que nos dá aquilo que a vida real não nos pôde dar, ou seja, todas as aventuras e todo o sofrimento. Todas as experiências que nós só podemos viver na imaginação, a escrita as completa.

Eu tenho um amor pelo jornalismo que transcende o que a profissão representa. No livro Grandes Sertões Veredas, do escritor João Guimarães Rosa, ele citou: “Que se teme por amor, mas também que por amor é que a coragem se faz”. Para mim, esse amor é a voz, é o sentindo, é a maneira que eu encontrei de transbordar a minha escrita por meio do jornalismo.

Quando o mundo fica muito brutal eu volto para dentro de mim. Meu mundo de dentro é tão grande quando o de fora, porque eu sou o que eu faço. Eu faço parte desse momento histórico, eu escrevo inundada pelo meu tempo.

É muito difícil ser jornalista e ser assombrada pela página em branco que está constantemente à nossa frente, mas a minha maior angústia é que vai me faltar vida para todas as histórias que eu gostaria de contar.

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