Vamos falar sobre menstruação?
Desde minha última menstruação quando estava fazendo a troca de coletores eu tenho pensado na relação da mulher com o nojo. Inclusive foi pauta de um discurso enfático depois de algumas cervejas em uma noite de sábado, com meu namorado. Nós mulheres fomos naturalizadas a sentir nojo, a começar pela menstruação, sangue espesso que escorre mensalmente entre nossas pernas. Pensa comigo, eu tinha DOZE anos quando comecei a sangrar, eu era uma criança, me lembro que era final de semana, e havia combinado de ir brincar com minha prima na casa dela, que ficava na cidade vizinha da minha. Eu sabia o que era dor de cólica desde muito antes, foram meses sentindo dores, sem entender, mas associava com o que estava por acontecer, até que aconteceu.
Não abri mão de passar o final de semana brincando, mas as dores atrapalharam meu passeio, o sangue que sujou minha roupa atrapalhou a brincadeira. Desde então, apesar de jovem, do meu total de meses vividos, passei mais tempo menstruando do que não. Minha mãe me deu uma explicação simples, me ensinou a usar o absorvente, porém minha inexperiência fez com que eu acabasse não sabendo posicionar direito na
calcinha. Fiz um esforço para tentar lembrar como eu identificava um ciclo e outro, porém o recalque funcionou, em minha memória o que tenho ainda foram as inúmeras vezes que insegura pedi para minhas amigas na escola DISFARÇAR e olhar se não tinha vazado. Eu me emocionei durante minha fala sobre o tema, afinal, eu era uma criança que sangrava, que na escola sentia com vergonha e pedia para ir embora quando minha roupa me denunciava.
Há alguns anos atrás uma exposição, em São Paulo, se não me falha a memória, trazia uma mulher que menstruava, e deste sangue era feita uma obra de arte, na minha cidade um macho escroto CASADO COM UMA MULHER E PAI DE DUAS MENINAS, falou horrores. Todo mês quando vejo o meu sangue tingir a água do sanitário, enxergo obras de arte incríveis, das quais, muitas vezes fotografei, mas pela falta de qualidade da câmera, não tiveram a intensidade daquilo que eu via.
Nós mulheres (ao menos eu fui) fomos educadas a sentir nojo, mas ao mesmo tempo naturalizar, parece contraditório, mas não é, naturalizamos esconder e concordar que os outros, os homens, sintam nojo da menstruação, porém tivemos que aprender a usar e trocar absorventes, lavar o sangue da roupa, desde muito cedo. Hoje, eu não sinto nojo, há alguns anos optei por permitir o meu corpo ter o seu calendário biológico respeitado, assim como sua morte, o que para nós mulher já começa desde a nossa primeira menstruação. Sangro de acordo com o tempo que meu corpo deseja. Não tenho nojo do meu sangue e se precisar ele irá manchar minha roupa e não me sentirei culpada por isso.
Por Morgana Corrêa, feminista e ativista
