A GENTE PRECISA SE (RE)CONHECER

Elisa Maia
Jul 10, 2017 · 4 min read

Da necessidade de nos visualizarmos em modelos e vivências possíveis na música.

Encontro de mulheres profissionais da música/cultura. Coletivo Difusão, abril/2017. Foto: Paulo Trindade.

Há uns dois meses atrás, eu e meus parceiros de trabalho do Coletivo Difusão, estivemos na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), conversando com alunos do curso de música. O bate-papo foi um início de diálogo para apresentar aos alunos finalistas o Festival Até o Tucupi, do qual sou produtora, como plataforma de atividades em parceria com o curso. O encontro foi facilitado pelo professor, músico, Bernardo Mesquita, que naquela turma, dava aula da disciplina de Etnomusicologia. A ideia inicial era que o Festival, que em 2017 completa 10 anos em Manaus/AM, pela primeira vez contemplasse atividades com foco nesses alunos ou ainda que ele servisse de objeto de pesquisa de trabalhos de conclusão de curso de algum aluno interessado nessa trajetória, a exemplo do jornalista e parceiro frequente do Difusão, Allan Gomes, que em seu TCC do curso de jornalismo, abordou os 10 anos do grupo, resultando no ‘Web-doc: dez anos de Coletivo Difusão’.

Desde que assumi a música como meu trabalho full time em 2011 (sendo que profissionalmente desde 2001 já era meu principal fazer, mesmo conciliando faculdade de Arquitetura e Urbanismo e estágios na área), entendi que fazer ‘só música’ não era suficiente. E de certa forma, nos 10 anos anteriores à essa dedicação exclusiva, eu já extrapolava o ‘compor-ensaiar-fazer shows’, quando tudo referente ao universo do trabalho na música (venda de shows, oportunidades, relacionamento com imprensa, músicos, produção de eventos) já era feito por mim, mesmo sem que eu parasse pra pensar muito sobre isso. Era natural eu querer fazer essas coisas, porque eu queria fazer as coisas do meu jeito, do jeito que eu achava que era melhor ou que funcionava melhor pra mim. Só que em 2011 eu passei a integrar o Coletivo Difusão — grupo essencialmente formado por artistas-produtores culturais — e de cara percebi que o que eu já fazia há pelo ao menos 10 anos poderia ser potencializado, inclusive pensando em sustentabilidade na música, se essas habilidades estivessem a serviço de projetos, produções, parcerias com outros artistas, de maneira sistêmica, organizada, mensurada, coletiva, colaborativa. Era possível aliar a gestão da minha carreira e os produtos que dela derivam (gravação de um álbum, shows) e que geram renda, à outros serviços no universo da produção cultural, colaborando em outros projetos e produções. Sacar isso e perceber que eu tinha uma certa facilidade nessa sistematização e entendimento, me fez vislumbrar com menos medo, que valia a pena saltar de cabeça ao deixar a Arquitetura para trás, por entender também que de maneira sincera, naqueles 10 anos, a música tinha ocupado um lugar muito mais importante na minha vida (inclusive financeiramente falando) e estava claro para mim, que eu não ia deixar de fazer música mesmo estando em outra profissão. Bom, isso já fazem seis anos. E no momento, sigo acreditando nesse formato, apesar de o mesmo estar passando por ajustes, com reposicionamento das prioridades e potencial para novas perspectivas nos anos que virão. Vale até um outro texto sobre isso, porque exatamente nesse momento, passo pelo processo de produção de um novo álbum (ah, sou cantora rsrs).

Eu, Elisa Maia e o guitarrista, Neil Armstrong Jr, que além de shows e gravações com artistas da cidade de Manaus, também toca num projeto de música instrumental e faz faculdade de Engenharia Civil. Sonora Local, maio/2017. Foto: Junior Moraes.

Por que eu senti necessidade de escrever sobre isso? Porque depois de algum tempo, é natural que os estímulos se desgastem e conversar com profissionais que eu julgava estarem muito distantes da minha realidade, mas que fazem parte do mesmo ecossistema da música-cultura que eu, me deu um conforto, um calor no coração, de saber que não estou só na disposição e nos arranjos que fazemos para seguir fazendo música. Existem outras pessoas, que como eu, tiveram coragem (e pagaram/pagam os preços por isso) de viver do seu sonho. E olha que eu convivo no Coletivo Difusão exatamente com pessoas que apostam no que sonham diariamente. Mas mesmo assim, tem dia que a gente se sente só na caminhada. Por isso é importante que de vez em quando a gente se lance em uns ambientes (mesmo fora do nosso ambiente comum), para ouvir e ver nas vivências das pessoas o gás de estímulo, inspiração para as nossas vivências. Daí que eu tenho pensado muito nisso, em como a gente deveria cada vez mais ser curioso e atento às diferentes trajetórias na música, dentro da nossa própria cidade (Manaus/AM), na maneira como cada um vem desenvolvendo sua tecnologia de sobrevivência e como cada um desses formatos podem servir de modelos possíveis para quem já está e para quem está chegando.

Já laboratoriando isso, sempre pensando a vida/projetos de maneira coletiva, colaborativa, tenho me aliado com quem tem se dedicado no desenvolvimento de uma vida possível no trabalho com a música, principalmente as mulheres. Isso tem sido uma premissa em quase tudo que penso ou desenvolvo enquanto produção cultural. Mas isso já é papo para vários outros textos que eu ainda quero ter ânimo para escrever.

Bora se (re)conhecer?

Eu, em ação, no Sonora Local. Maio/2017. Foto: Junior Moraes.

Elisa Maia

Written by

Mulher negra, da Amazônia, cantora-compositora-produtora cultural-arquiteta da própria vida, que escreve uns parágrafos pra organizar o próprio pensamento.

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