Os filmes da gripe

Não sei bem porque mas fiquei com vontade de escrever um texto comentando os filmes que assisti quando estive gripada. Não é muito a minha cara fazer isso, mas…

Wendy e Lucy

Wendy e Lucy constavam numa lista do New York Times como um dos filmes mais importantes do século XXI. Não sei por que ainda caio nessa. “Não era um filme que estava procurando, mas ele praticamente sambou na minha cara no melhor estilo “me assiste, me assiste” e eu pensei: o new York times falou né… (Oh God!).

Agora a pergunta de um milhão de dólares é a seguinte: como um filme onde não acontece RIGOROSAMENTE NADA pode ser um dos mais importantes do século?

Não tenho a mínima ideia. Ok, se eu me esforçar para ser um pouquinho generosa e espremer e espremer talvez eu consiga tirar alguma metáfora ou alguma nuança psicológica( sei lá, “olha só o que o mundo capitalista faz com as pessoas” ou “olha só como a geração millenials está perdida”) é sério, com exceção de conclusões um tanto obvias para essa historia não conseguir ver nada, a não ser um filme arrastado e chato. Ok, Lucy é uma fofa.

Sempre fico com a sensação de que “filmes cults” tem duas versões: a que passa para o público em geral e a que passa para os críticos filósofospoetasociólogos.

Passangers

Como dizer? Esse é um misto de visão pós-moderna do gênesis misturado com o conto da bela adormecida. Metade do filme gira em torno dos problemas de casal dos protagonistas e na outra metade eles estão ocupados salvando o mundo (entenda o mundo aqui como a nave com cinco mil passageiros onde eles estão) afinal esse é um filme americano e nunca poderia faltar o “deixa que eu resolvo” ora, ora…

Ponto positivo: os efeitos, o design da nave.

Sempre fico cheia de esperança com filmes de ficção cientifica. E exatamente por isso, sempre me decepciono. Tudo parece existir apenas para confirmar os valores tradicionais americanos. Imagina, você está numa nave, viajando cento e vinte anos para chegar EM OUTRO PLANETA e essa experiência extraordinária é só um mero detalhe quando o que realmente importa é o amor. Só faltaram os filhos lindos e loiros para confirmar também que a família nuclear é o CENTRO DO UNIVERSO.

Isso me lembrou daquela versão ruim de Guerra dos mundos (com o Tom Cruise). O mundo acabando, a raça humana ameaçada, e é exatamente nesse momento que Tom Cruise resolve ser um bom pai.

O que nos leva para…

A chegada (Arrival)

Fiquei com a sensação que a chegada alienígena foi exclusivamente para mudar a vida da personagem da Amy Adams. Novamente a mesma premissa: o extraordinário acontece e tudo o que importa é o amor e a vida em família. Ok, eu chorei em alguns momentos (mas eu choro vendo gifs de gatos e cachorros, então…), mas está lá, é claro que a vida é linda e VOCÊ é especial, etc, etc.

Com relação a filmes com ETS só existem duas possibilidades: ou eles são os bandidos da historia (e é claro que os EUA vão ter que salvar a humanidade) ou eles sãos dóceis como pets e querem dá um “upgrade” na corrida evolucionista da raça humana (distribuindo super poderes que logicamente os americanos vão receber primeiro). O filme “a chegada” se rendeu aos argumentos óbvios.

Acho que eu seria meio que como o Frodo sabe? Depois de uma experiência aterradora e profundamente transformadora, eu nunca poderia voltar para o condado e viver a vida ordinária como se nada tivesse acontecido. Voltar a achar que aquilo que os meus olhos abarcam é toda a realidade e que rolar no tapete com meus filhos (extensões de mim mesma) é tudo o que importa. Por isso é difícil engolir esses finais de novela da Globo.

Carol

Li esse livro duas vezes, em dois momentos distintos da minha vida então já viu né? É claro que não dá para comparar o livro com o filme. Achei uma adaptação difícil de ser feita, porque o grande trunfo dos livros da Patrícia Highsmith são as nuanças psicológicas de seus personagens. Isso se perdeu um pouco no filme. No filme, as tensões e conflitos gerados pelo romance das duas mulheres se perdem um pouco também, e tudo acaba se resolvendo de uma forma meio fácil demais. Mesmo assim, achei um filme competente, interessante.

Coraline

Outra adaptação de um livro que eu simplesmente amo. No final das contas eu gostei, porque gostei de ver minha personagem querida ganhando vida, porque as imagens eram legais e porque essencialmente a historia foi mantida. Mas sinto raivinha da necessidade de deixar tudo super explicadinho, sem margem para que o expectador especule sobre o que está rolando, o final feliz (prefiro o final do livro) e o principal: coraline é uma historia que eu julgo ser “infanto juvenil”, mas antes disso, é uma historia macabra, de terror… e isso se perdeu completamente na versão para o cinema. Mas ok dá para passar.

Love

Mais uma daquelas tentativas de fazer pornô com história. Achei apenas um enorme amontoado de clichês reunidos ali para justificar aquela galera transando. Ok, as imagens tinham sua beleza plástica e eu gostei particularmente de algumas soluções estéticas usadas nas cenas mais “hardcore”. Mas não sei, meus sentimentos são meio ambivalentes com esse tipo de filme. Parece-me sempre algo feito com o intuito de chocar e consequentemente lucrar. A produção do filme é francesa mas o filme é todo falado em inglês (porque é mais fácil vender e distribuir um filme falado no idioma mais importante do mundo). O toque dramático da historia eu achei meio forçado, caricato. Talvez porque eu não me identifique mais com essas questões, não sei…

Lovelace

Não tenho muito que dizer sobre esse filme. Acho que ele entrega o que promete, mas sei muito pouco sobre Linda Lovelace (o mito sexual e depois a ativista social) para poder opinar sobre. Mas o que eu gostei particularmente, é que o sucesso comercial do filme parece ter criado a ideia de Linda Lovelace era uma mulher liberada, dona do seu corpo e sexualidade e na verdade era exatamente o contrário. Acho que muitas pessoas têm uma idéia meio equivocada e glamourizada da indústria pornográfica e esquecem as centenas de mulheres exploradas ali que sustentam essa indústria. Sem contar que pornografia é na verdade uma grande ode a sexualidade masculina e que as mulheres ali são meros apêndices para ajudar a enaltecer essa sexualidade… enfim, tô falando demais. Daqui a pouco os consumidores vorazes vão aparecer aqui para me chamar de puritana.

A ballerina’s tale

Não um filme, mas um documentário. Sobre a trajetória da bailarina Misty Copeland. Sou suspeita para tecer comentários sobre qualquer coisa que envolva dança, porque eu amo QUALQUER COISA que envolva dança. Esse documentário tem um ingrediente a mais porque Misty é uma mulher negra. Então, sua trajetória pessoal é também uma trajetória politica na luta para provar seu valor como mulher negra. E sim, ela alcançou o ápice como bailarina profissional. E sim, vê-la dançar me arrancou lágrimas dos olhos.

Minha única ressalva é aquela óbvia: narrativas pessoais geram aquelas velhas ideias de que o feito de Misty Copeland pode ser reproduzido por qualquer um. Aquela coisa tipo: “se até Misty que era negra e pobre conseguiu, é claro que você consegue também, basta trabalhar duro e não desistir”.

Bem, é claro que as pessoas devem trabalhar duro por aquilo que querem e não desistir (às vezes é preciso desistir sim) mas é porque eu trabalho com a matemática simples de que o pódio do mundo não tem espaço suficiente para sete bilhões de pessoas e que na verdade o mundo é moldado para que determinados tipos de pessoas (como a Misty,por exemplo) não prosperem. Mas a questão social fica em segundo plano. Todo o foco é sempre no individuo. Enfim, estou chovendo no molhado, todo mundo já sabe disso melhor do que eu.

Esses foram meus dois reais por esses filmes.

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