Recolhimento

Há momentos em que realmente me pergunto se a critica é necessária. E penso no enorme desperdício de energia em apontar meu dedo acusador para esse ou aquele que cometeram o pecado gravíssimo de não gostar do que eu gosto, ou de pensar diferente de mim.

E qual o saldo final da minha critica muito importante? Nenhum. mas isso gera um falso sentimento de importância, uma sensação de que estou demarcando meu território (como um animal), conquistando espaço, conquistando o respeito daqueles que parecem compactuar com a minha arrogância desmedida.

Ah sim, foda-se se minha critica afeta você. Para está na internet, baby, é necessário estomago se não aguenta vai embora, etc, etc.

É engraçado como o processo de coisificação é potente. Como é fácil esquecer que há seres humanos do outro lado da tela e que as palavras podem sim ser usadas como chicote. E ferem. Mas a fraqueza é sua e não minha. Se não aguenta, então pede para sair.

Uma das grandes metas da minha vida, se é que posso revelar, é diminuir ao máximo as demandas do meu ego. Isso implica em muitas coisas, é quase um renascimento dentro desse mesmo corpo. E nesse processo de diminuição, eu preciso está atenta a tudo aquilo que me afeta, eu preciso avaliar, pensar, respirar fundo. É exaustivo. Por isso, eu tenho tentado economizar minhas energias, não gasta-la com inutilidades, como me deixar abalar pela falta de sensibilidade alheia. Como achar que me deixar paralisar pela raiva pode transformar a realidade. E o mais espantoso disso tudo? Muitas vezes a vítima nem sequer sou eu, mas aquele comentário cheio de arrogância e veneno me afeta do mesmo jeito.

Compareço em redes sociais o mínimo possível. Sinto que isso fez uma diferença enorme na qualidade dos meus pensamentos e de como meu tempo é melhor aproveitado. Escrevo muito mais, pesquiso e leio somente o que me interessa, medito mais, reflito mais. Sair do facebook no ano passado, mas meu marido (que ainda está por lá) gosta de me atualizar sobre as manchetes (manchetes= tretas) e eu penso: “nossa senhora da tecnologia, obrigada por ter me feito ver a luz”.

Mas todo mundo está lá. A amiga feminista que vive caçando (eu disse caçando) todos os comentários machistas da sua rede de contatos para poder alimentar sua raiva e rancor. Para comprar briga. Para compartilhar com as amiguinhas que também se sentem tomadas de raiva e rancor. E é claro que isso vira uma espiral de virulência, porque o machista não vai se curar do seu mal só porque a mocinha destemida foi lá, partir para a briga. A conhecida vegana que deseja que os filhos da comedora de carne tenham câncer, porque né, eu sou a favor da vida e do amor…

Pai, obrigada por manter esse cálice longe de mim. Eu escolho voluntariamente não conhecer os piores aspectos das personalidades dos meus amigos e conhecidos. Eu já tenho sombras demais dentro de mim para poder lidar. O que eu realmente preciso é me nutrir de esperança para que minha jornada pessoal de conquistar a mim mesma seja bem sucedida.

Por isso acredito que a ignorância é uma benção. Isso não tem relação com alienação (e bem, eu poderia chegar rapidamente a conclusão de que se manter antenada no chorume da internet é uma espécie de alienação). Por isso pedir ao meu marido: “comenta as coisas boas”. Quero ver pessoas sorrindo em festas, projetos bacanas, textos inspiradores. Não me fale de tretas, porque eu (ainda) não lido bem com a escrotice humana. Eu quero revidar (mas nunca revido) e aquilo fica fermentando dentro de mim, me azedando por dentro.

Sim, eu sou sempre a única perdedora desse jogo sem sentido que é as redes sociais hoje em dia. Só que eu não quero mais jogar. E vou criar filtros ainda mais eficientes para me manter cada vez mais longe.

Estou reafirmando meus votos de cuidado a mim mesma esse ano. Isso implica em assumir cada vez mais o rótulo de “outsider”.