O equilibrista

Elise Haas
May 8, 2018 · 2 min read
Fonte: Pexels

Na corda bamba da vida, ia se equilibrando, fazendo graça e troça, arrumando troco aqui e ali para a cachaça e rindo dos buracos que se reproduziam em suas calças.

Dia desses, pouca luz do sol, muito barulho, a gurizada decidiu aprontar-lhe uma. Bota isso lá em cima do poste pra nós? Vamos ganhar uma aposta, sobram uns pra ti também… E ele foi, trepando ali com dificuldade. Começou a chover. Chegou ao topo, ninguém sabe como, e tinha nas mãos duas garrafas. Era uma em cima da outra, disseram.

Quando conseguia deixar uma de pé, ouvia o berreiro: Não é aí! Um pouquinho mais pra lá… Isso! Agora arruma pro outro lado… Pouca coisa… Não, não… ficou fora de prumo desse jeito! Assim não vai dar… Arrasta o ninho daí e centraliza a garrafa. Não vai deixar cair!! Ele seguia as ordens até um ponto. Depois, fazia tudo ao contrário do que diziam.

Lá embaixo, riam dele. Lá em cima, ria deles.

Cansou das pernas, e desceu, lentamente. Os rapazes também já estavam cansados e não achavam mais graça na bagunça. Foram embora. No outro dia voltavam, com novas aventuras e desafios impossíveis ou arriscados. Divertiam-se, aprontavam, orgulhavam-se de fazê-lo de tolo, de torná-lo ridículo. Às vezes davam algumas moedas, outras traziam um pão com linguiça para o homem. Achavam-se os senhores dele, um tolo, louco.

Numa corrida atrás de um caminhão de lixo, fizeram-no saltar umas trinta vezes da caçamba e voltar. Riram a cada tombo em meio ao chorume. Ele ria certas vezes, mas numa curva não conseguiu se recuperar e ficou no chão. Os guris vieram à sua volta, um pouco assustados. Será que desta vez fora demais? O homem não abria os olhos, nem se mexia. Estava todo lanhado e sujo, inerte. A única expressão do seu rosto era um sorriso largo, mostrando os poucos dentes que lhe restavam. Foram embora mais uma vez, e o homem ficou ali.

Dormiram nada aquela noite. Não sentiam culpa, nem tristeza, nem orgulho. Sentiam-se derrotados em seu próprio mundo do impossível. E, naquele momento, um mistério inquietante os visitava pela primeira vez: descobriam que, para o equilibrista, não há impossível, nem risco, nem ridículo, há apenas um espetáculo do absurdo que roda, roda, roda… sem parar.

Escrito em janeiro de 2015 — para o Jornal Sem Censura

Elise Haas

Written by

vivente por escolha

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade