Conversa entre “Eu e meu cérebro ansioso”

Eu: Oi

Cérebro Ansioso: Oi

Eu: Tudo bem?

Cérebro Ansioso: Tudo

Eu: O que tá fazendo?

Cérebro Ansioso: Nesse momento pensando nas contas atrasadas, nas contas que virão. Nos puxões de orelha que recebeu, naquela sua colega do primário que te bateu. Nos dias que você passou os domingos sozinha porque não queria ir almoçar na casa da sua avó. No vizinho que sempre te perturbou sem você ter feito nada a ele. No cachorro da sua tia que te mordeu, porque assim como a sua tia, ele não ia muito com a sua cara…

Por que? O que você quer?

Eu: Porque me deu vontade de conversar exteriormente com você?

Cérebro Ansioso: Exteriormente?

Eu: Sim, aqui fora, onde o mundo real acontece?

Cérebro Ansioso: E por que não mantemos nossa conversa íntima como sempre acontece.

Eu: Porque em uma conversa íntima você me ludibria. Você não possui raciocínio lógico ou temporal e me convence facilmente que fatos ocorridos em meu idos tempos de infância repetem em cada atitude que eu deveria tomar agora.

Cérebro Ansioso: Mas eles não se repetem?

Eu: Não. Creio que não. Mesmo se repetirem, já tenho idade suficiente pra aprender a me defender.

Cérebro Ansioso: Ah é??? E como vai fazer isso?

Eu: Te convidando pra irmos lá fora. Para tomar um ar. Bater um papo, sentir a brisa e os primeiros raios de sol acalentando a pele.

Cérebro Ansioso: Em que isso vai resolver nossos problemas?

Eu: Não sei. Mas pelos menos estaremos por livre e espontânea vontade acorrentados ao presente. Sabe, tive pensando que eu não posso pertencer ao passado. Eu não tenho condições de mudá-lo. Eu queria. Mas não posso. Por outro lado, sei que você não estampa diariamente minhas cicatrizes e feridas mal curadas por mal. Acredito que tenha boa índole. E que faça isso mais por questão de hábito.

Cérebro Ansioso: Eu sei. Mas é como eu aprendi a resolver as coisas.

Eu: Te entendo nesse sentido. Mas olha só. O mundo é vasto de experiências e tem experiências de todo tipo. Se eu deixar você me prender nas experiências ruins, não vou poder viver as razoáveis, as fantásticas, as mágicas, as amorosas e por aí vai.

Cérebro Ansioso: Mas como saio lá fora, se tudo me parece gigante, ameaçador, barulhento e doloroso?

Eu: Me parece assim também caro amigo. E às vezes borro nas calças só de ouvir o som caótico que transborda através da janela. Eu queria ficar com você, aqui, no quarto escuro, isolada. Mas se fizer isso, morro. E você parceiro, morre também. Então eu pensei que há dias em que o céu parece adorável, que existem lá fora muitas pessoas gentis assim como árvores e sombras que refrescam a alma. Então resolvi chamar você, para curtir comigo. Sem pretensões. Somente sentir o que o mundo lhe oferece de bom.

Cérebro Ansioso: Mas e se eu cair. E se eu rolar. E se não gostarem de mim? Por que não gostam de mim?…

Eu: Calma aí!!!To respirando usando o diafragma. Conta de 1 a dez pausadamente que vou esvaziando os pulmões devagar. Isso. Ótimo. Mais uma vez pra desacelerar.

Melhorou?

Cérebro Ansioso: Sim

Eu: Mais confiante?

Cérebro Ansioso: Sim

Eu: Quer ir ao banheiro antes de tomarmos uma ar lá fora?

Cérebro Ansioso: Não.

Eu: Tem certeza?

Cérebro Ansioso: Tenho poxa. Num tenho mais cinco anos não.

Eu: Tá bom. Eu só não quero que me dê vontade de fazer xixi quando estivermos longe de casa.

Cérebro Ansioso: Então é melhor fazer agora, porque você comeu muita melancia a tarde e tá meio inconstante o sinal da sua bexiga.

Eu: Tá. Faço xixi e aí a gente vai, tá bom?

Cérebro Ansioso: To com medo.

Eu: Me dê sua mão e junto daremos um passo de cada vez. Até a porta do quarto, depois até a porta de saída e por fim até o elevador.

Cérebro Ansioso: Então, vai parar de falar e vamos sair logo? To ficando ansioso novamente.

Eu: Tá ok. É pra já.

Fomos