A tristeza dos girassóis (parte II de II — final)

Liège deixou o apartamento, trancando-o rapidamente. Ela seguiu pelo corredor até o elevador e entrou nele, em seguida pressionando o botão do último andar. Em alguns instantes, o elevador parou no pavimento requisitado. Suas portas automáticas abriram-se, deixando-a em outro corredor com uma única porta. Liège abriu a porta, um pouco hesitante, encontrando o terraço completamente vazio. Um sorriso se abriu em seu rosto, satisfeita.

Ela tinha um apreço especial por aquela parte do prédio. Adorava o fato de o clima estar sempre mais fresco lá em cima, e gostava de observar os outros edifícios, as ruas e luzes daquela perspectiva. Subia para o terraço com frequência, algumas vezes só para fumar e relaxar, encostada no parapeito de granito que contornava o ambiente; outras para pensar com calma e organizar suas ideias. Aquela madrugada correspondia à segunda situação: sua mente estava cheia e não conseguia descansar.

Logo depois de colocar os pés para dentro do terraço, Liège teve uma surpresa triste. Ali havia uma grande floreira de girassóis, os quais ela costumava regar várias vezes por semana, conforme fazia suas visitas. No entanto, aparentemente, era a única que se importava com aquelas flores: enquanto estava fora, ninguém parecia ter se preocupado em regá-los. Os girassóis passaram três semanas sobrevivendo apenas da água das chuvas ocasionais, o que fez com que ficassem murchos, inclinados para baixo, como se estivessem entristecidos.

Liège suspirou pesadamente, sentindo-se culpada por não ter pedido para alguém cuidar deles enquanto não estava na cidade — apesar de se tratar de um “patrimônio” do condomínio inteiro. Talvez ela realmente fosse a única pessoa que frequentava aquele terraço, além das zeladoras, afinal. Por fim, decidiu que iria trazer um regador cheio d’água quando estivesse voltando para o apartamento, na esperança de salvar as pobres plantas tristes.

Ela abriu a pequena bolsa marrom aveludada que carregava no ombro e dela retirou um maço de cigarros. Para mais uma surpresa levemente infeliz, restava apenas uma única unidade ali. Liège se perguntou se estaria se afundando ainda mais no vício; quando foi que ela começou a esgotar seus maços com tanta rapidez?

Com um clique, o isqueiro produziu uma pequena chama amarela, contrastando com a escuridão do terraço, iluminado apenas pelas poucas luzes da rua e dos prédios. O cigarro foi aceso e levado até a boca de sua dona. Liège fechou os olhos e, por um instante, teve vontade de chorar. Foi como se tivesse sido atingida, de vez, pelas nuvens da tempestade que a ameaçavam desde que tinha colocado os pés para dentro de seu apartamento. No momento em que vasculhou sua correspondência e não encontrou o que esperava, ela ouviu os trovões. Agora começava a chover, e sua morada não era seu abrigo para esse tipo de tempestade.

A não ser pelas plantas e alguns quadros nas paredes, a sensação era de que faltava algum tipo de humanidade no apartamento. Faltava calor, faltavam “qualidades” — as quais Liège não saberia enumerar — para que aquele espaço parecesse um lar, e não um simples teto sobre a sua cabeça, dotado de algum conforto ambiental. Quando recebia seus poucos amigos, aquele espaço ganhava um pouco de vida; mas quando estava sozinha, o que correspondia à maior parte do tempo, as paredes pareciam engoli-la em seus tormentos. Liège expeliu a fumaça do cigarro e suspirou, sentindo sua garganta arranhar, sugerindo o choro.

Ela, então, percebeu o nonsense de suas divagações: não era sobre o apartamento. Nunca tinha sido. O problema não estava no espaço; não havia o que culpar em seu projeto, sua decoração ou mesmo suas paredes branco-gelo. Por um instante, Liège compreendeu que nenhum lugar seria um lar diante de seus olhos, enquanto ela se sentisse uma andarilha. Nenhum lugar teria calor suficiente enquanto ela estivesse fria, como um fantasma a vagar em um plano espacial que não lhe pertence. Um pequeno sorriso triste abriu-se em seu rosto, diante desse momento de entendimento, como que alguém que recebe um lanche frio em um restaurante, mas esboça algum alívio ou gratidão ao garçon por estar morrendo de fome. Liège levou o cigarro à boca mais uma vez, com certa resignação.

Nesse caso, ela indagou, que lugar seria um lar?

Quando era criança, durante as férias de verão, Liège viajou algumas vezes com sua mãe pelo estado do Paraná. As duas adoravam visitar as cidades históricas, com destaque para Lapa, Antonina, Morretes, Paranaguá e a capital, Curitiba. Era quase uma tradição que pegassem o trem com o trajeto Curitiba — Morretes — Paranaguá. Ela considerava essa viagem um passeio extremamente prazeroso; havia um conforto peculiar em viajar de trem observando as hortênsias a florescer pelas encostas da ferrovia.

Diante dessa memória, Liège fez uma analogia: sua vida era uma viagem de trem. Ela havia visitado vários lugares, acumulado experiências, e continuava assim, seguindo em viagem, sem saber qual seria sua próxima parada. Pessoas embarcavam naquele trem, curtiam a viagem com ela por certo período, e em algum momento desembarcavam, deixando-a, para seguir outro caminho. Com o tempo, mais pessoas embarcavam, desciam, fazia-se um fluxo constante. No entanto, havia nela um desejo profundo, ou melhor, a necessidade de parar em um lugar confortável. Este era o lar que ela idealizava há tempo, o conforto de que precisava.

Onde iria, finalmente, parar o trem no qual ela vinha viajando desde o início de sua adolescência? Onde estaria se escondendo aquela satisfação, aquele conforto e paz de espírito que tanto procurava, pulando de um lado para o outro no mapa cartográfico?

Poderia estar dentro dela própria — e Liège concebeu esse pensamento com certa repugnância, expelindo uma pequena nuvem de fumaça, como se também quisesse, naquele gesto, expulsá-lo. Parecia uma ideia recortada de um livro de autoajuda — “encontre sua paz interior em cinco passos” — e era ainda mais repugnante pensar em até que ponto os livros de autoajuda realmente estariam errados. Ou as palavras da terapeuta que ela consultou duas vezes e desistiu. Ou mesmo os conselhos de sua mãe, dentro daquela maria-fumaça com destino para Paranaguá.

Parecia-lhe que as coisas eram muito mais difíceis de encontrar quando estavam dentro das pessoas, e não no mundo lá fora, nas faculdades, empresas, lojas, restaurantes fast food, mesas de bares e camas de motéis. Ou mesmo dentro das outras pessoas, aquelas nas quais esbarramos diariamente, com quem criamos laços. Escavar em si própria à procura de respostas lhe parecia uma tarefa muito mais árdua, por mais contraditório que isso parecesse, por mais que estivesse fazendo-o no exato momento em que concebia tais pensamentos. Aliás, o excesso de pensamentos conflitantes estava deixando-a exausta, como se, logo depois da viagem de São Paulo, estivesse a fazer outra viagem, para os lugares mais estranhos e confusos de sua mente. E dessa vez não havia amendoins para mastigar na tentativa de reduzir o estresse do vôo (ou seria uma viagem de trem?); havia só aquele cigarro solitário, o último do maço, que definhava lentamente entre seus dedos trêmulos.

Liège engoliu, naquele instante, uma dose de escapismo. Quis voltar a ser criança, sentiu saudades imensas daquela sensação de liberdade sem culpa, e ao mesmo tempo da sensação de ter uma conexão com o mundo. Naquela época, não estava perdida. Estava sob os cuidados de sua família e o mundo inteiro lhe parecia simplesmente uma grande extensão do parquinho de seu bairro: um espaço de exploração, de curiosidade e de criatividade. Não tinha medo de muitas coisas, só de besouros muito grandes e de tomar vacina; era sociável e tinha muitas amizades. Ia bem na escola, participava das aulas fazendo perguntas e não tinha muitas dificuldades para aprender. Ah, pensou, em que cômoda velha ou casa abandonada eu fui esquecer aquele coração tão curioso e destemido?

Entre suas amizades daquela época, destacava-se um garoto tímido, retraído e de poucas palavras. Moravam no mesmo bairro e brincavam muito juntos, quase todos os dias. Ela, como uma criança mais curiosa e extrovertida, era quem tomava a iniciativa de convidá-lo para brincar, explorar a região, jogar jogos. Ele era sempre muito quieto, às vezes até medroso e inseguro, mas dava para perceber que estava se divertindo quando estavam juntos. Uma das memórias mais marcantes que Liège tinha com esse garoto, na infância, era de estarem correndo na rua em frente à sua casa na época do outono. Ela corria na frente, segurando o pulso dele, quase que obrigando-o a seguir o seu ritmo. No entanto, apesar da nitidez daquela imagem em sua mente — as duas crianças, com mais ou menos seis anos de idade, correndo na rua, entre folhas caídas — ela não conseguia se lembrar do que estavam correndo. Mas lembrava que estava rindo; então não deveria ser algo realmente ruim.

Esse mesmo garoto era o atual amigo com quem ela havia “perdido a conexão” — pela segunda vez. Aconteceu que, aos oito anos, a pequena Liège mudou da cidade pequena com sua família, deixando-o para trás. Dez anos depois, vivendo na capital, os dois se reencontraram, ingressando na mesma universidade federal. Foi nessa época que estiveram mais próximos, talvez próximos demais. Em algum momento, o amor fraterno e o amor carnal confundiram-se. Houve conflito, houve paixão, houve sexo, e algo próximo de um romance. No entanto, em certo ponto, tornou-se unilateral. Liège, no fundo de seu ser, era incapaz de corresponder ao amor que ele desejava. Seu coração só parecia se esfriar e se distanciar mais e mais a cada noite que passavam juntos. Dessa forma, os dois se separaram e seguiram caminhos bem distintos.

Essa distância foi mantida por anos, até que ele começou a enviar cartas para ela. Em sua correspondência, contava sobre sua nova vida no Japão; depois de algumas tentativas falhas de conseguir emprego e constituir uma vida normal, ele acabou por se envolver com o tráfico de drogas e com as gangues da yakuza. Liège tinha dificuldade para associar a imagem do garoto tão tímido de sua infância e do rapaz tão gentil e estudioso do início de sua vida adulta, à imagem do homem perigoso que ele havia se tornado. No entanto, era capaz de enxergar, nas entrelinhas de suas cartas, a real essência daquela pessoa que esteve presente em épocas tão marcantes de sua existência. Se a vida de Liège, até aquele ponto, fosse um trem em movimento, como ela havia imaginado antes, ele teria desembarcado no Japão, e deixado-a sozinha para o resto da viagem. E agora aquele gesto parecia definitivo: seu velho amigo havia desaparecido de vez de seu radar. Talvez estivesse morto — enquanto ela fumava um cigarro no terraço, observando girassóis murchos, perdendo-se em filosofias.

Viajar é bom; estar em constante mudança é importante e, muitas vezes, um sinal de evolução. Poder ser livre, para mover-se da forma que desejava perante a vida, era algo que Liège havia muito desejado em sua adolescência e, por fim, havia conquistado. Entretanto, naquele momento, aquilo parecia mais um desejo que havia se tornado maldição. Dentro de seu ser havia se instalado um sentimento de solidão que se manifestava como um vazio em sua caixa torácica; como se nada que sentisse tivesse profundidade suficiente, como se nunca atingisse uma conexão suficientemente satisfatória com as pessoas.

Mais uma vez, ela suspirou profundamente, imaginando como seria bom estar correndo em uma rua coberta pelas folhas do outono. Como seria bom estar correndo acompanhada, segurando o pulso de alguém, rumo a uma liberdade que não era solidão, ou vazio, e sim a plenitude que buscava.

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