bicho do mato
eu não quero morrer assim, vazia e fria como uma escultura oca de barro. não quero morrer assim, sem nunca ter sentido prazer nos raios de sol tocando o meu rosto. sempre cobrindo a luz com a mão esquerda.
você se sente completa? ou lhe falta o pedaço em mim? dizem que jamais devemos implorar por amor. é necessário, além de amar-se primeiro, amar a solidão. ou melhor, a solitude. mas é uma tarefa difícil se ensinar a sentir algo pré-determinado, de qualquer um dos lados. a teoria é linda; a prática é uma batalha. são coisas de ser humano, afinal. coisa de ser que pensa até doer.
tenho um coração bem desobediente, eu bem sei. um timing horrível; e a péssima coordenação motora do corpo deve ter se estendido aos meus pensamentos. uma década inteira perseguindo a liberdade, tentando agarrar o vento com unhas e dentes; quando me dou conta, estou olhando para as paredes brancas, desejando companhia entre os lençóis amassados. passo por maus bocados, brigo, grito, choro, quero desaparecer. faz falta uma voz reconfortante. as conexões nunca parecem profundas o suficiente. eles não querem saber disso, não tem a obrigação de ouvir. essa energia negativa é minha, e vou engolir até engasgar de vez.
é que eu sempre fui meio bicho do mato, entende? nunca soube me comportar do jeito adequado, sempre tive dificuldades para me encaixar e me adaptar a um caminho. e a gente sempre paga um preço por não ser quem-a-gente-deveria-ser, em seus variados sentidos. eu pago a minha conta parcelada, somada ao preço de toda a minha contradição, de querer ser individual, mas em coletivo; de querer ser livre, mas em um lugar seguro. “o inferno são os outros”, alguém disse, um dia, mas pra mim isso não é verdade. o meu inferno sou eu mesma.
e eu não quero morrer assim.