Crucifixo torto

O ventilador de teto ligado produz um som desagradável e constante. Deitado no chão de um quarto de paredes cor de creme, há um garoto de doze anos. Seus cabelos loiros e razoavelmente longos formam grandes caracóis, que se esparramam no piso de taco de madeira, onde ele se deita de barriga para cima. Está vestindo uma camiseta branca surrada, com uma pequena mancha de achocolatado no peito.

O barulho do ventilador de teto abafa um pouco do som de seu pai gritando com sua mãe em outro cômodo. Entre os gritos, ouve-se o baque surdo de objetos pesados caindo no chão. O garoto fecha os olhos, desejando que o ventilador pudesse girar com mais força e rapidez, até tornar aquela discussão completamente inaudível. O som da máquina, na velocidade em que estava, já era horrível. Mas qualquer coisa seria melhor do que ouvir os gritos do pai, furioso e violento como um animal irracional.

Ele conhecia aqueles gritos havia muito tempo. Desde que era bem pequeno, conseguia lembrar-se do pai brigando com a mãe. Às vezes a discussão tomava proporções exageradas e ele a agredia fisicamente; socos, tapas, pontapés. O menino sempre recebia as ordens de sair do ambiente, mas mesmo em outro cômodo, sabia muito bem o que estava acontecendo. E ainda que tentasse enganar-se, diminuir aquela violência, torná-la eufemismo diante de seus olhos tão jovens, não conseguiria ignorá-la. As marcas sempre ficavam na mãe. Hematomas, cicatrizes, choro. Apesar de tudo isso, ela continuava a sorrir no dia-a-dia. O sorriso mais triste do mundo, ele pensava.

Quando se deu conta, estava soluçando. Não derramava uma lágrima sequer; mas soluçava, como se tentasse engolir o nó pesado que tinha se formado na garganta. O pai o havia repreendido inúmeras vezes quando chorava; chorar é coisa de mulherzinha, chorar é coisa de gente fraca. Você é fraco? Venha aqui que eu vou te dar motivo pra chorar que nem uma menininha. Venha aqui, estou mandando, ou cale a porra dessa boca. Cale a porra dessa boca antes que eu te obrigue. Soluço. Soluço. Soluço. Gritos. Seus olhos estavam completamente secos, mas sua garganta vibrava e suas mãos tremiam.

O garoto percebe que seu nariz está sangrando. Sente o líquido quente e forte se acumulando nas narinas. Parece que o soco do pai fora forte demais dessa vez. Ele move a cabeça, levemente, para o lado, de forma a deixar aquilo escorrer, para não se asfixiar. A lei da gravidade faz o seu trabalho, dois filetes vermelho-escuros escorrendo até os lábios descascados e pálidos, maculando-os. Os lábios abrem-se um pouco, o gosto metálico faz-se presente. Apesar do sangue, o nariz não dói tanto. Há outras coisas que doem mais, e ele sabe bem disso.

O menino volta a olhar para o teto, mais precisamente para o ventilador. Ele é tão barulhento que só pode estar quebrado. O forro já está trincado perto de sua base, e seu som irritante é acompanhado de um movimento errático, quase descontrolado, em torno daquele eixo, ao contrário do que um ventilador em boas condições deveria apresentar: um ritmo linear, constante. Parece que a qualquer momento aquela hélice poderia soltar-se dali e degolá-lo. No entanto, os gritos do pai ainda se fazem suficientemente audíveis do cômodo ao final do corredor. Em uma das paredes cor de creme, um crucifixo de madeira, levemente torto, parece observá-lo.

O quarto onde está é vazio, a não ser por algumas caixas de papelão, o ventilador de teto e o crucifixo de madeira. É um quarto da casa que estava sobrando, praticamente um depósito para coisas-inúteis-que-precisam-ser-guardadas-em-algum-lugar. O piso, mesmo sendo de madeira, parece frio como um azulejo de porcelana sob o corpo cansado do garoto de doze anos. Os caracóis de seus cabelos loiros repousam ali, levemente emaranhados. O sangue já não escorre mais de seu nariz, mas ele nem sequer se preocupa em limpá-lo. O menino simplesmente se mantém imóvel, deixando o líquido secar, ali, com a cabeça cheia demais para pensar muito além disso.

Ademais, o crucifixo continua a observá-lo, silencioso. Ele o observa de volta. Por um segundo, é como se implorasse por um milagre. Seus olhos estão carregados de um desejo íntimo de ir embora daquele lugar. O garoto não deseja a morte; ele ainda a teme e não a compreende o suficiente. Apenas sonha com a ideia de que um anjo, como nas histórias que lhe contavam quando era mais novo, pudesse descer ali, naquele quarto poeirento, e levá-lo para outro lugar. Levá-lo para um lugar bem distante, longe de seu pai violento e dos sorrisos tristes de sua mãe. Longe daquela vida permeada por regras e medo, tradição e tristeza. Longe da cidade pequena com pessoas de mente pequena. Longe do crucifixo torto na parede.

Em meio àquela súplica silenciosa e levemente contraditória, ele sabe que aquilo jamais aconteceria. No fundo de seu ser, o garoto não se sente merecedor de qualquer ajuda divina, por três motivos. O primeiro é que ele odiava seu pai. Tinha consciência do quão pesada era aquela palavra, e do quão errado soava, ainda mais sob as regras da igreja católica, da qual sua família era fielmente devota. No entanto, não conseguia descrever de outra maneira a sensação de ardência que testemunhava em sua pele toda vez que via aquele homem. Sentia-se incapaz de amá-lo; mesmo que ele trabalhasse duro a maior parte do dia como provedor do lar, sempre cansado, com olheiras fundas e o cabelo grisalho desgrenhado — e frequentemente cheirando a álcool e fumaça. Mesmo que houvesse momentos bons, dias em que o pai sorria, fazia piadas que ele não compreendia e dava presentes. Mesmo que a mãe falasse bem dele, por mais que ele batesse nela, por mais que ele a insultasse, ela mantinha-se de pé, ou ajoelhada, rezando para que Deus o protegesse em mais um dia de trabalho. Mesmo que seus parentes lhe dissessem que ele era muitíssimo parecido com seu pai, quando este era criança — e ah, como ele detestava essa comparação.

O garoto sentia um ódio intenso, porém silencioso, por seu pai. Jamais o respondia, insultava ou gritava com ele. Sabia que qualquer atitude daquele tipo apenas dificultaria mais ainda sua vida e a de sua mãe. Uma vez, chegou a dizer perto dela que desejava que o patriarca morresse; foi repreendido com um tapa no rosto: ingrato, você não vê tudo o que o seu pai faz por nós? Como você pensa que viveríamos sem ele? De certa forma, sua mãe estava certa. Ela, ainda que fosse tão jovem, não tinha formação ou experiência alguma, e dificilmente conseguiria um emprego suficiente para mantê-los. Seus pais, avós do garoto, extremamente conservadores, também não os aceitariam de volta em sua casa. Com certeza não fariam o mínimo esforço para demonstrar apoio e compreensão pela situação deles, não, muito pelo contrário: julgariam as atitudes da filha, mãe tão jovem, e olhariam para o garoto com olhos tristes, envergonhados. Uma mancha viva em uma família de tanta tradição. Nunca fizeram muita questão de vê-lo mesmo, por que se preocupariam em ajuda-lo agora?

Dessa forma, sua raiva passou a ser um sentimento que o menino guardava para si, como se o aprisionasse em um jarro de vidro, acorrentado e escondido cuidadosamente entre suas costelas. Infelizmente, não era a única emoção que ele mantinha lá dentro. O segundo motivo que o fazia questionar se era digno da graça divina era, curiosamente, a falta de confiança que havia desenvolvido na crença religiosa. Nascido em uma família católica, foi desde pequeno apresentado a esse mundo e suas regras particulares. Como o esperado, tomou o primeiro sacramento, depois do catecismo, e frequentava a igreja semanalmente com os pais. Em meio a toda essa tradição, na mente do garoto, imperava um estranho sentimento de confusão e desconexão em relação àquele mundo.

A igreja, um espaço projetado com um propósito específico de persuasão, era um ambiente que lhe trazia um desconforto peculiar; um pé-direito altíssimo, figuras dramáticas nas paredes e um enorme crucifixo de madeira por trás do altar, como uma réplica gigante, mais detalhada e mais bem-feita daquele, levemente torto, que estava na parede do quarto. Todos esses elementos pareciam tocar seus sentimentos, mas não de uma maneira positiva. Pelo contrário, a sensação que tinha era, principalmente, medo. As palavras do padre, tão apreciadas por toda a comunidade, pareciam cair como um peso sobre seus ombros ainda pouco desenvolvidos. Peso, talvez, seja a palavra que melhor expressava a influência daquele espaço em sua vida. Era tudo muito pesado, muito grande, muito intenso, muito dramático, muito triste, muito sistemático, muito… Medo.

Esse fator não vinha sozinho, mas era acompanhado de outra condição que, talvez, pudesse ser determinada como a principal das possíveis causas para tanto desconforto diante do espaço sacro. É aqui que entra o terceiro motivo que levava o garoto a sentir-se indigno. Desde alguns anos antes, ele começara a desenvolver sentimentos peculiares em relação a garotos de sua idade. Talvez estivesse pensando longe demais, ele repetia para si mesmo, como um mantra, mas era impossível ignorar ou apagar as sensações que tinham despertado dentro dele recentemente. Seria tudo muito típico para um pré-adolescente, a época das primeiras paixões, dos corações acelerados, beijos inocentes; seria realmente muito “típico” — isto é, em sua visão amedrontada diante da influência da família e da sociedade — se tudo isso fosse direcionado às garotas. Mas não era.

Por mais que ele repetisse para si que tudo aquilo parecia muito errado, por mais que tentasse sufocar as borboletas dentro de seu estômago e forçar seus olhos a ver de outra maneira — a maneira considerada aceitável e certa –, tudo isso era inútil. Poderia tentar enganar a si e aos outros o dia inteiro, forçando ações e comportamentos que não condiziam com sua verdade; mas à noite, sozinho em sua cama, todas essas coisas vinham à tona. E eram momentos dolorosos. Mais uma vez, o menino se esforçava para suprimi-los e guarda-los no jarro de vidro dentro das costelas. Assim poderia viver mais um dia, tentando convencer-se de que nada estava acontecendo. Sentia-se fraco mas, na realidade, era muito forte. Essa força era o que o sustentava mesmo em dias como aquele, de sangue e gritos; a força e uma dose de esperança, de que o futuro poderia ser diferente.

O garoto fecha os olhos e suspira profundamente. O sangue sob o nariz já está bem seco, e ele não está mais soluçando. Dentro de si, cessam os gritos, faz-se o silêncio. O peso ainda reside sobre os seus ombros, por tanto tempo acumulado, nem um grama sequer mais leve, mas ele já está acostumado. E existem coisas maiores na vida do que aquele peso, pensa. Maiores do que aqueles dias. Maiores que a fúria doentia do pai. Maiores que as lágrimas da mãe. Maiores que a crença religiosa. Maiores que a (o)pressão. Dentro dele, existe algo mais forte do que aquela dor. Precisa existir.

Ouve-se o som de algum objeto estilhaçando no outro quarto. Por um instante, cessam os gritos dos pais. Uma leve brisa do ventilador balança os caracóis dos cabelos loiros, esparramados pelo piso de madeira. Os olhos do garoto voltam a se abrir.

O crucifixo na parede já não está mais torto.

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